Gil Piva

Até o último homem

Até o último homem

Por Gil Piva

Por Gil Piva

Publicada há 8 anos

Mel Gibson é um sujeito intrigante. Ganhou, quando ninguém apostava suas fichas nele, o Oscar com Coração Valente – seu longa-metragem épico –. O filme é estimulante e de encher os olhos. Naquele ano de 1995, Gibson deixaria de lado o bronco jeito enunciado por seus personagens para fazer história como diretor.

Mesmo antes de Coração Valente, Mel Gibson já havia sentado numa cadeira de diretor: estreava com O Homem sem Face. Acertara a mão e produzira um filme precioso.


Em A Paixão de Cristo, chocou a plateia com as cenas descarnadas sob um montante considerável de violência. Pena que a maioria dos críticos se rendeu apenas a discutir certo antissemitismo (duvidoso). Pena. O filme vale mais que isso.

E, por fim, gostaria de acrescentar que tenho um grande respeito também pelo filme Apocalypto. Tem-se nessa narrativa algo que, a meu ver, gera devagar um acontecimento dramatúrgico impensável. E por esse caráter de improbabilidade é que se firma obras exageradas em algum aspecto.


O caso é que Gibson está concorrendo este ano novamente ao Oscar pelo filme Até o Último Homem, um drama de guerra.


Trata-se da história real – tão real que chega a ser mais estranha que a ficção – do médico do exército Desmond, durante a Segunda Guerra Mundial, que se recusa a pegar em armas para combater o inimigo em Okinawa. O que faz um homem desarmado na guerra então? Salva inúmeras vidas.


Por sorte o perfil sintomático do filme escapa de clichês e isola sentidos emocionais fortes; ou seja, é verdade o que dizem por aí: não se viam cenas de guerra desse naipe desde O Resgate do Soldado Ryan. Incrível instrumentalização das imagens a ponto de quase causar (des)prazer estético.


Há duas questões interessantes. Primeiro, e felizmente, Mel Gibson dá todo o suporte necessário que a guerra pede para não escorregar e, ao mesmo tempo, deixar o espectador imóvel, experimentando a consistência de todo o desdobramento presente.


Porém, e infelizmente, o diretor erra e agride o filme com seu tosco final. Um final que destrói o fascínio das imagens anteriores e não deixa que a subjetividade do espectador se reencontre. Explico melhor: os “finalmentes” interrompem o gozo.

É, de fato, uma questão secundária. Mas uma questão secundária, como o próprio começo do filme, que agencia a imersão numa dimensão crível. A isto damos o nome de verossimilhança. Eis o que todo bom roteiro deveria produzir.

Talvez Até o Último Homem leve algumas estatuetas para casa, embora sua atenção esteja concentrada na falta de um roteiro mais convincente, onde, percebe-se, o filme navega automaticamente.


Sim, isso acontece. O filme não é excepcional, mas a semiobscuridade das cenas de violência próprias de seus filmes anteriores estão ainda bem presentes, assim como as nuances líricas (num menor grau, evidente).


Tudo é uma questão de gosto. Vale a pena assistir. Deixemos os detalhes indesejados que enumerei de lado sob a sombra improdutiva e fria do que se empenhou e não se alcançou, para nos deleitarmos com o que espreita a remota batalha.



últimas