Carnaval: uma turnê da socialização inconsciente em busca de prazer e diversão sistêmica. A definição, a beira de prováveis erros, é minha. Com isso não chego a fazer uma crítica ao que não gosto, mas uma inaudita tragédia da minha própria incapacidade de não gostar.
O carnaval, assim como as festas de peão, me deixa melancólico. Sinto-me, nestes específicos momentos, um ser solitário, separado do resto do mundo, movido por uma incapacidade de me envolver na euforia perpétua dessa fórmula nada abrandada de agitação. Há gente como eu que também não gosta mas prefere mascarar seu sentir-se indisposto a assumir o delírio da entrega às festividades tanto quanto o partidarismo embriagado de um projeto-vida – tido como especial, pela peculiaridade da diferença – justificado por um pedantismo sem igual.
É fantasmal estar alheio a tudo isso. Noutros tempos, tentei me enturmar, arrisquei desmedidos passos de samba, agitava os braços como um boneco bobo de Olinda (mais bobo que boneco, diga-se de passagem). Tudo para me enturmar. Fora em vão. Eu pressentia a falta de consonância, a falta de significado no meu modo de ser. Em suma, eu parecia meio animalizado por um automatismo insondável que eu, de fato, desconhecia.
Após alguns anos de tentativas, rendi-me à falta de vocação e ao sofrimento de solidão. Carnaval, para mim, desde então passou a representar horas ininterruptas de filmes; excessos creditados a leituras, algumas doses de vinho, música clássica ou jazz, no intuito de amenizar a tragédia irrefletida e amenizada de não “saborear” o comum batuque nominável e palpável da grande maioria. Detalhe: nunca cogitei superioridade nos meus atos, nas minhas escolhas, etc. A minha postura, de certo modo, é a cortesã de uma redenção involuntária, assaltada de comicidade... E desespero. Com o Natal e o Ano Novo as mesmas coisas, só que menos doridas. Tudo se repete. Com a indevida vênia, tornei-me um espectador que, em essência, abafa-se na perspectiva de admirar, exaustivamente, a folia ávida que se desenrola ruidosa.
Em contraste, me perco no ideal de Nietzsche, cuja dor que rumoreja em nós é metafísica e que, portanto, não corresponderia uma relação extra entre o exterior e o interior. A vida passa e eu me vou aguentando, cada vez mais cansado dos livros e dos filmes. À primeira vista, se possível, trocaria tudo o que fui e o que sou por uma inundação enfática própria da enfeitada e embelezada “felicidade” dessa época, já que a melancolia minha representa “uma excitação sobre o vazio”, segundo João Pereira Coutinho (28/02 - frase que faço questão de retirar um pouco de seu devido contexto).
Trocando em miúdos, às vezes “nascer” de uma espiritualidade contemporânea, indiferente a todo tipo de seriedade e, talvez, riscos, pode repousar um alto ideal – como um impulso à avidez que romperá a fresta de felicidade passageira. Mas o que não é passageiro nesta vida? Em meus textos procuro fazer um mergulho nas misérias e grandezas dos homens. Cioran dizia que todo movimento leva a negar-se a si próprio. Pois bem, hoje, sem recorrer a camuflagens, julgo minha personalidade imutável mediante esses olhos, mergulhando nas minhas próprias misérias. Com que facilidade nos consumimos no centro do mundo, dizia Cioran; e completa: escrever e venerar não andam juntos. Ainda bem que o Carnaval já se foi.