Nossos estados de sofrimento se misturam num tipo de pântano, onde tanto a tristeza pode ser pegajosa quanto a felicidade metamorfoseada – num período do fim de uma dor. Não existe um ideal de felicidade único.
Na verdade, toda vez que leio artigos proclamando a beleza da vida e os cem motivos para como se enxergar o lado bom de tudo, se esquecem, aqueles que os escrevem, que também estão, antes de tudo, a confirmar que a tristeza talvez esteja mais presente e corrosiva na vida do que se imagina. Trocando em miúdos: se preciso me expressar tanto a favor da felicidade, é porque a vulnerabilidade nossa à tristeza talvez seja do mesmo porte, das mesmas possibilidades de ocorrências. Talvez, eu digo.
No meu caso, quando discorro sobre o assunto, prefiro me emaranhar no sentido inverso da coisa toda; ou seja, abordar o elemento intimista, o medo, a fraqueza, a tragédia, etc. É um método de repensar o intenso germe da condição humana, sem um ideal pronto e acabado. A partir daí, creio eu, as alegrias, interstícios entre uma dor e outra, vigoram mais compreensíveis a ponto de, ao falarmos de felicidade – se é que ela existe como gostaríamos –, ao exprimirmos seus movimentos de forma mais perceptível. Só há um jeito de entendermos os dois pontos: abraçar a experiência.
Digo isso porque fui assistir ao filme Logan. O filme não chega a ser bom, modificaram a questão primordial da história dos mutantes, que é a evolução e os recorrentes preconceitos com os diferentes. A personagem Logan tem uma presença de cena muito forte, quase marcante, alcançando o tempo exato da natureza afrontada pela falta de escolha. Ironicamente, num dos piores filmes sobre super-heróis, há um dos melhores paradoxos protagonizando também: a dor obscura e ininterrupta do homem que é capaz de se regenerar e renovar suas condições de vida.
Nós não nos regeneramos, mas nos adaptamos de volta à “normalidade” da vida, uma normalidade desgastada por uma dor. No filme, vemos Logan (o nome real do Wolverine) velho, no pico de seus duzentos anos de idade. Percebam, Logan não parece tão velho por causa de seu poder de cura. Num certo momento do filme, Logan diz a outro personagem: “Se quer continuar vivo, fique longe de mim”. Seu sofrimento, constantemente invocado, experimenta nesta franquia da série um excesso ainda maior de seu corpo – e a palavra corpo aqui é usada, como no filme, de maneira mais metafórica que real – pois ele não se regenera com a mesma intensidade com que sofre.
A presença dos traumas sofridos evidencia que nossa natureza é pervertida. Os traumas não cicatrizam, mas somos obrigados a aprender com eles; porém, na contramão, enquanto aprendemos com o que já se passou, tentamos nos preparar para o que virá.
Meus alunos sempre me perguntam de qual herói gosto mais. Eu, prontificado, repito que do Wolverine, embora seus filmes não sejam meus preferidos. A singularidade de seus sofrimentos o torna mais humano que os demais heróis, e este, porém, é um traço racional que emerge da associação que fazemos. E acrescento a eles: o sofrimento também pode ser belo. Como disse certa vez o psicanalista Contardo Calligaris, “quero viver o que der e vier, comédias, tangos e também tragédias – quanto mais plenamente possível, sem covardia”. Logan é uma espécie de anti-herói, por viver sem covardia sua própria dor. Mas para quem não concorda com nada do que falei, ou não entendeu patavinas, recomendo o filme ainda assim, as cenas de ação valem por si só e dão corpo à narrativa.
P.S.: Como ando meio sobrecarregado, a partir de deste sábado meus textos serão quinzenais, e olhe lá. Conto com a compreensão e assiduidade dos meus (in)fiéis leitores.