Carlos Eduardo

O grave problema das drogas e a esperança islandesa

O grave problema das drogas e a esperança islandesa

Por Carlos Eduardo Maia De Oliveira - Professor

Por Carlos Eduardo Maia De Oliveira - Professor

Publicada há 8 anos

".. da Bolívia uma outra amiga chegou, riu de mim porque eu não entendi; quis me empurrar um saco daquele pó, dizendo que tão puro eu nunca vi... Eu disse não, não, não, não, eu já parei de ‹hunfz; cansei de acordar pelo chão, muito obrigado eu já estou calejado, não quero mais andar na contramão...” (trecho da canção “Não quero mais andar na contramão”, interpretada pelo saudoso cantor e compositor Raul Seixas). 


A letra da canção revela a mudança de postura de uma pessoa que fez uso de drogas e que, a cada nova oferta, recusa-as, decisivamente, alegando cansaço frente às consequências de seu consumo. Ironicamente, o intérprete dessa música, o grande cantor Raul Seixas, morreu de pancreatite aguda devido ao consumo abusivo de bebidas alcoólicas, que estão entre as drogas que mais provocam mortes. 


A despeito de qualquer polêmica que, normalmente, permeia esse tema, é consenso que as drogas são um problema social e de saúde pública, pois geram sérios prejuízos aos usuários, às suas famílias e à sociedade. Muitos desses prejuízos são bem conhecidos, como a perda da saúde física e mental, da dignidade pessoal, do emprego, abandono da família e do lar - situação na qual a pessoa passa a viver nas ruas (muito frequente entre usuários de crack) – dependência química que leva a pessoa a dilapidar seu patrimônio para manter o vício, associação com o tráfico, envolvimento com crimes e delitos, acidentes de trânsito com vítimas fatais (no caso de pessoas alcoolizadas), câncer entre fumantes, disseminação do vírus da AIDS e das hepatites B e C, principalmente entre usuários de drogas injetáveis, entre outros infortúnios.


 As estatísticas relacionadas ao tema geram preocupações às autoridades públicas. Em 26 de junho de 2014, a Organização das Nações Unidas (ONU), por meio de seu escritório sobre Drogas e Crimes (UNODC, na sigla em inglês), divulgou um relatório mundial sobre drogas. Os dados são relativos ao ano de 2012 e, segundo o estudo, 5% da população mundial entre 15 e 64 anos - correspondente a 243 milhões de pessoas - usa drogas ilícitas (proibidas por lei); cerca de 200 mil pessoas morreram no ano de 2012 devido ao consumo de drogas; em média, no mundo, existem 27 milhões de usuários “problemáticos” (consomem drogas regularmente ou apresentam distúrbios ou dependência) e apenas um a cada seis usuários busca tratamento a cada ano. 


No Brasil,um estudo elaborado em 2010 pelo Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (ligado ao Ministério da Justiça) revelou que 86% dos universitários já fizeram uso de álcool na vida, sendo que 36% beberam em “binge” (ingestão de cinco ou mais doses em uma única ocasião) nos últimos 12 meses; 18,9 é a idade média dos jovens que iniciam com o uso de drogas ilícitas e 15,3 é a idade média de início no consumo de álcool; em 2007, de acordo com o Relatório Brasileiro sobre Drogas, 4,3 mortes a cada 100 mil habitantes no Brasil foram relacionadas ao uso de drogas e 90% dessas associadas ao álcool. 


Enfim, os dados estatísticos são preocupantes e enfatizam que os problemas gerados pelo consumo de drogas ilícitas e álcool são tão impactantes que se tornaram impossíveis de serem ignorados pela sociedade, especialistas no assunto e autoridades públicas. Frente a esse cenário, debates acalorados são travados e convicções contrastantes são reafirmadas sobre os caminhos para se amenizar esse grave problema. Há especialistas que são a favor da legalização de algumas drogas; outros, são terminantemente contra essa medida. 


Alguns depositam suas esperanças no aumento da repressão do poder público e no rigor das leis, já muitas pessoas concordam que apenas os traficantes devem ser punidos e os usuários devem ser tratados como dependentes químicos que merecem atenção e tratamento médico especializado. 


O assunto é polêmico, não restam dúvidas, porém, a despeito desse cipoal de opiniões, em um pequeno país europeu,a aplicação de medidas simples na prevenção às drogas, sobretudo entre os jovens, surtiram resultados positivos em um curto período de tempo; o país em questão é a gélida Islândia. De acordo com reportagem publicada no dia 14 de fevereiro de 2017 no portal de internet BBC Brasil, no final da década de 90, a Islândia apresentava um dos maiores índices de consumo de álcool e drogas entre os jovens da Europa, porém, atualmente, é um modelo a ser seguido. “Apenas 5% dos jovens entre 14 e 16 anos dizem ter consumido álcool no mês anterior (a média da Europa é de 47%); 3% dos jovens fumam tabaco diariamente (a média europeia é de 13%) e apenas 7% da juventude islandesa consumiu maconha ao menos uma vez nos últimos 30 dias. Na América Latina, 35% dos jovens entre 13 e 15 anos consumiram álcool no último mês e 17% fumam diariamente, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF)”. 


As razões para o sucesso islandês estão no programa intitulado Youth in Iceland (Juventude na Islândia) que, em resumo, consiste na aplicação das seguintes medidas: pesquisa contínua dos hábitos e preocupações dos adolescentes para levantar informações confiáveis que norteiam as tomadas de decisões (questionários são aplicados, a cada dois anos, aos estudantes de todas as escolas do país); após a realização dessa pesquisa, a análise dos dados, para identificação dos fatores de risco e proteção contra o consumo de álcool e drogas, é realizada em conjunto pelas escolas, comunidades e municípios; oferta maciça aos jovens de atividades extracurriculares relacionadas ao esporte, música, teatro, dança e demais atividades culturais, preenchendo, assim, o tempo ocioso deles; conscientização dos pais para passarem mais tempo com seus filhos, pois, de acordo com o diretor do Centro Islandês para Pesquisa e Análise Social, Jón Sigfusson (responsável pelo projeto), “é de suma importância o fator parental, pois quando os pais passam mais tempo com seus filhos, é possível apoiá-los, controlá-los e vigiá-los”.


 Desde 2002, na Islândia, foi proibido aos menores de 12 anos e adolescentes de 13 a 16 anos andarem sozinhos pelas ruas depois das 20h e 22 h, respectivamente. Grata coincidência! Essa última medida também foi adotada, algum tempo atrás, de forma semelhante, por um nobre juiz no município de Fernandópolis - SP, com excelentes resultados. O sucesso do projeto islandês foi tão grande que, em 2006, criou-se o Youth in Europe (Juventude na Europa), cujo objetivo foi expandir a receita para outros países do continente europeu. “Em apenas 10 anos, mais de 30 municípios europeus adotaram o projeto”, afirmação em destaque na reportagem do portal de internet BBC Brasil. “Os responsáveis não são as crianças, e sim nós, adultos. 


Devemos criar um entorno onde eles fiquem bem e tenham a opção de preencher seu tempo com atividades positivas. Isso diminui a probabilidade de eles consumirem substâncias maléficas”, afirmou Sigfusson à reportagem da BBC. Como afirmou o próprio Sigfusson: “os aspectos culturais dos países são diferentes e, por isso, o que funcionou na Islândia pode não funcionar em outros países”. No entanto, devido aos excelentes resultados em tão pouco tempo, o projeto islandês de prevenção às drogas merece reflexão e, quem sabe, com algumas adaptações, possa ser adotado em países da América Latina, incluindo o Brasil.



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