Meus donos eram meu mundo. Eu contava com toda atenção deles, brincavam comigo e, na vasilha, sempre encontrava água fresca e ração crocante. Nunca senti sede ou fome e, de vez em quando, era só fazer cara de pena para ganhar um pedacinho de carne suculenta; de tardezinha, sempre me levavam para passear no parque. Quantos odores diferentes ali! O tempo passou e meu pelo foi perdendo o viço, minhas pernas estavam se enrijecendo, comprometendo minha agilidade, minha visão começou a embaçar, meus dentes começaram a cair e a comida já não me parecia saborosa como antes. O pior é que meus donos já não brincavam tanto comigo. No entanto,ainda gostava de passear no parque e, um dia, um de meus donos me levou para passear em outro lugar. Chegando lá, estranhamente, ele abriu minha coleira, retirou-a de meu pescoço, entrou no carro e partiu. Ainda sentia o seu cheiro no local. Fiquei esperando por ele. Caiu a noite, o dia clareou, e meu dono não apareceu. As horas se passaram, a fome apertou, tornou-se insuportável, e, por isso, comecei a procurar comida na rua. Senti muito a falta de meus donos e nunca mais os vi.
Essa história fictícia, na hipotética visão de um cão abandonado, retrata um caso cruel de maus-tratos que, infelizmente, é muito comum: o abandono de animais de estimação, especialmente quando envelhecem.
Além da crueldade, não deixa de ser um ato de ingratidão, pois uma pessoa adota ou compra um pet e o cerca de carinho e cuidados, e o animal, por sua vez, retribui com sua constante presença, demonstração de amor e lealdade ao dono, mas, inevitavelmente, o pet cresce, envelhece e, na perspectiva de alguns donos, torna-se desinteressante, até mesmo inconveniente, e, como solução para esse “problema”, simplesmente o abandona nas ruas. É comum também o abandono de filhotes, o que torna o ato mais abominável, pois esses não apresentam autonomia para obter alimentos ou procurar abrigo seguro. De acordo com uma pesquisa realizada em 2015 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Centro de Pesquisa WHALTAM®e o Professor Doutor Ricardo Dias, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo (USP), os brasileiros apresentam três comportamentos péssimos que levam ao abandono de animais: compram animais sem pensar nas implicações, não os castram e os abandonam por motivos fúteis.
Além de ser um ato de crueldade e ingratidão, o abandono de animais de estimação constitui-se em um problema de saúde pública, pois esses podem albergar micro-organismos causadores de doenças em humanos, como por exemplo, a perigosa leishmaniose, que é potencialmente fatal quando não tratada e cujo agente causador também pode afetar os cães. Destaca-se que a macrorregião de São José do Rio Preto apresenta, todos os anos, vários casos.
De acordo com uma pesquisa, elaborada por Zini e colaboradores e apresentada no ano de 2016 no VIII Congresso da Sociedade Paulista de Parasitologia, foram notificados 192 casos em pacientes em nossa região no período de 2008 a 2015, com 20 óbitos registrados.
As pesquisas relacionadas ao tema apresentam informações e índices importantes, mas o que não se consegue mensurar é a maldade de pessoas que abandonam seus melhores amigos, que são seus cães, gatos e outros animais de estimação, que lhes oferecem alguns atributos raramente observados entre os humanos: a lealdade e o companheirismo incondicionais.
Que as pessoas tenham consciência da responsabilidade do ato de cuidar de animais de estimação, que merecem nosso respeito, carinho e atenção, e não o contrário, que é a ingratidão extrema na forma de abandono.