OPINIÃO

TCESP: Défict da SPPREV é de R$ 973 bilhões; dos Institutos de Previdências Municipais de R$ 45,5 bilhões

TCESP: Défict da SPPREV é de R$ 973 bilhões; dos Institutos de Previdências Municipais de R$ 45,5 bilhões

Quem está cuidando do dinheiro que deveria cuidar das pessoas?

Quem está cuidando do dinheiro que deveria cuidar das pessoas?

Publicada há 10 horas

Auditoria Extraordinária revela vulnerabilidades graves nos Regimes Próprios de Previdência Social; déficit bilionário, falhas de controle e descontos sem amparo jurídico acendem alerta sobre a gestão de recursos que sustentam o futuro de servidores e pensionistas

Um diagnóstico que ninguém queria ver — mas era inevitável

O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCESP) decidiu olhar fundo — talvez como nunca — para o sistema que sustenta a aposentadoria de milhares de servidores municipais e estaduais. O resultado da Auditoria Extraordinária nos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), apresentado pelo Conselheiro-Corregedor Marco Bertaiolli no evento “Previdência em Foco”, expôs um quadro preocupante: um organismo fragilizado, desprotegido e vulnerável por falhas que vão do operacional ao estrutural.

E se há algo que o TCESP quis deixar claro, é isto: a soma dessas vulnerabilidades coloca em risco não apenas números, mas futuros.

Vulnerabilidades por todos os lados

A fala do Conselheiro-Corregedor Marco Bertaioll durante a apresentação sintetiza o espírito da auditoria: um sistema marcado por “alto grau de vulnerabilidade”, fruto de erros recorrentes, descontroles internos e práticas irregulares.

Ao analisar os 218 RPPS municipais e a SPPREV, o levantamento revelou:

• Um *déficit atuarial bilionário e crescente

— RPPS municipais: déficit de R$ 45,4 bilhões

— SPPREV: déficit que ultrapassa R$ 973 bilhões

Números que, isoladamente, já assustam. Em conjunto, escancaram a incapacidade histórica de equilibrar compromissos e patrimônio — hoje reduzido a cifras incompatíveis com as responsabilidades assumidas.

• Descontos sem base legal: o descontrole institucionalizado

Entre os 218 regimes analisados:

110 não possuem qualquer instrumento jurídico que ampare descontos;

93 não contam com autorizações individuais dos segurados;

– Nos 215 que descontam em folha, 106 sequer têm regulamentação básica.

Ou seja: o básico do básico — autorização e legalidade — simplesmente não existe em boa parte dos institutos.

Quando o alerta externo vira urgência interna

Em meio à crise do Banco Master, cuja liquidação extrajudicial deixou milhares de servidores em alerta, a auditoria ganhou outro peso. A Atricon orientou os Tribunais de Contas do país a intensificarem o acompanhamento dos investimentos previdenciários — cerca de R$ 2 bilhões podem estar expostos no banco, envolvendo ao menos 18 entes federativos.

A pergunta que ecoa é óbvia: quem está cuidando do dinheiro que deveria cuidar das pessoas?

Falhas no atendimento: o segurado por último na fila

A inspeção in loco de 226 auditores mostrou outra faceta da fragilidade institucional: quem precisa de atendimento enfrenta barreiras que não deveriam existir:

  • Falta de ouvidoria, canais anônimos ou de reclamação;
  • Acesso precário a demonstrativos;
  • Ausência de ferramentas adequadas — especialmente para idosos.

Se o regime previdenciário fosse um órgão de atendimento ao público, estaria entre os piores avaliados.

As determinações: prazos, exigências e um ultimato

Bertaiolli deu o recado — e com prazos claros:

Em 30 dias:

– Apresentar todos os instrumentos que sustentam descontos;

– Revisar e conferir imediatamente os valores descontados;

– Editar normas internas operacionais.

Em 90 dias:

– Implantar sistemas de ouvidoria com canais adequados de denúncia.

Em 180 dias:

– Validar autorizações de descontos, preferencialmente por biometria.

É um cronograma que mais parece um processo de reconstrução.

O recado que ecoou no Auditório do TCESP

Ao encerrar sua apresentação, Bertaiolli falou em proteger “o patrimônio de vidas” confiado ao sistema previdenciário. Não foram palavras de encerramento — foram palavras de alerta.

E é justamente isso que a Auditoria Extraordinária deixa evidente: ou o sistema se refaz, com governança, transparência e rigor, ou continuará a caminhar perigosamente na linha entre a falha e o colapso.

* Déficit atuarial ocorre quando o valor de um plano de previdência (ativos) é insuficiente para cobrir o valor total das obrigações futuras (aposentadorias e pensões), com base em uma projeção de longo prazo. Em outras palavras, as projeções indicam que os recursos acumulados e as contribuições futuras não serão suficientes para honrar todos os pagamentos planejados no futuro. 

Por: Beto Iquegami - beto@oextra.net

O texto é de livre manifestação do signatário que apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados e não reflete, necessariamente, a opinião do 'O Extra.net'.

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