OPINIÃO

Artigo: Maria Amélia, mulher forte e pioneira discreta de Fernandópolis

Artigo: Maria Amélia, mulher forte e pioneira discreta de Fernandópolis

Por: Carlos Eduardo Maia de Oliveira é Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis

Por: Carlos Eduardo Maia de Oliveira é Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis

Publicada há 2 horas

O autor com o crânio de um Crocodylus niloticus, o segundo maior crocodilo do planeta, que pode alcançar seis metros de comprimento e uma tonelada de peso corporal. Foto: Arquivo Pessoal

Maria Amélia de Oliveira fez parte dos primeiros moradores de Fernandópolis, na verdade, por aqui se instalou bem antes da fundação da nossa cidade. 

Dona Maria Amélia, como era conhecida, casou-se com Antônio Candido de Souza no ano de 1926, em Campos Gerais, sul do estado de Minas Gerais e, no mesmo ano, mudou-se para Fernandópolis.

Na época, nem existia Vila Pereira e Brasilândia, as vilas que originaram Fernandópolis.

Seu marido adquiriu uma propriedade rural entre o córrego do Gatão e da Aldeia, nos arredores onde, atualmente, localiza-se o clube “Água Viva Thermas Resort” e o aeroporto municipal.

Naquela época, segunda metade da década de 1920 (lembrando que Fernandópolis seria fundada em 1939), só tinham matas fechadas e a estrada da boiadeira por essas paragens. Diziam os primeiros moradores de nossa cidade que à noite era possível ouvir o esturro de onças nas matas a quilômetros de distância.

Dona Maria Amélia. Foto: Arquivo pessoal

Ao chegar por aqui, Dona Maria Amélia, em 1926, ajudou o seu marido a desbravar esse imenso sertão, iniciando o cultivo das primeiras lavouras nesse chão, sobretudo de café, que um dia pertenceria ao nosso município.

Teve oito filhos na seguinte ordem: Alvarina, Manoela, Augusta, Izaura, Sebastiana, Laurinda, Geraldo e Cristovão. Quase todos falecidos, com exceção de Geraldo que vive, atualmente, na cidade de Populina- SP, e está com 86 anos de idade, com muita saúde e disposição.

Uma tragédia marcou a sua vida ainda jovem - ficou viúva aos 33 anos, após o assassinato de seu marido, Antônio Candido de Souza, com oito filhos pequenos para criar e mais um enteado (Joaquim Inácio), fruto do primeiro casamento de seu marido. Imagina o desafio!

Logo após ficar viúva, com a venda da propriedade rural da família, adquiriu um sítio que abrangia o que é hoje o Parque São Cristovão, parte do bairro Jardim Santa Helena, passando pela Avenida Expedicionários Brasileiros, nos arredores do supermercado Sakashita, e terminando em frente a atual escola ETEC. Cultivou principalmente café nessa propriedade rural que um dia se transformaria em importantes bairros de Fernandópolis.

Com coragem e garra, típicos de mulheres fortes, Dona Maria Amélia criou os oito filhos e o enteado ensinando-os a trabalhar no meio rural e a professarem a religião católica, cujos dogmas influenciaram na educação de sua família.

 Além dos filhos, também criou vários netos e sobrinhos, entre eles: Paulo, Geraldo, Regina, Lourdes, Clarindo, Álvaro e Expedito. E pensar que hoje, os pais modernos, têm dificuldades para criar um ou dois filhos.

Com o crescimento da cidade, as propriedades rurais, circunvizinhas ao perímetro urbano, começaram a ser loteadas; não foi diferente com o sítio de Dona Maria Amélia. 

Na cidade, Dona Maria Amélia se notabilizou pela sua intensa participação na igreja católica, desde os seus primórdios em Fernandópolis até o ano de 1988, quando veio a falecer.

Fundou o “Apostolado da Oração”, sendo a primeira presidente desta importante comissão católica.

Organizava terços em sua residência e tinha o dom de benzer (raro, hoje em dia), sobretudo as crianças. Sempre usava um raminho de planta com água benta para benzer. Ela conseguia sentir se a pessoa estava com a “áurea carregada”.

Por falar em planta, Dona Maria Amélia tinha bom conhecimento prático sobre ervas medicinais, adquirido quando o nosso município ainda era sertão - obviamente não existiam farmácias naquela época e as pessoas tinham que se valer das plantas medicinais para aliviar as dores e os sintomas das doenças.

No quintal de sua casa não faltavam plantas como erva cidreira, caferana, boldo, dentre outras ervas medicinais.

Quem a visitava em sua humilde casa era recebido com toda a sua simpatia e a sua atenção. Os visitantes sempre eram convidados a experimentar o seu delicioso chá servido naquelas tradicionais xícaras de cor creme da década de 1980.

Era uma senhora simpática, carismática, atenciosa e sábia, cuja sabedoria foi adquirida ao longo de sua vida repleta de experiências, muitas difíceis, mas nenhuma que ela, mulher forte, pudesse suportar (poucos, hoje em dia, suportariam o que ela já passou em vida). 

Todas estas características a credenciaram a ser uma verdadeira matriarca da família Oliveira, com expertise e exemplo de vida para dar conselhos valiosos a todos que a procuravam.

Voltando a falar de sua religiosidade, Dona Maria Amélia teve uma fé inabalável em Deus e era devota fervorosa de Nossa Senhora Aparecida. Seus filhos, parentes e amigos, ao procurá-la para pedir conselhos, sempre ouviam dela uma recomendação para não perder a fé na mãe de Jesus e em Deus, tentando assim encorajá-los a enfrentar as dificuldades da vida, como ela as enfrentou (e não foram poucas vezes, hein!).

Era tão atuante na igreja católica que o vigário, na época, permitiu que uma parte do seu velório fosse realizada no interior da igreja matriz de Fernandópolis, onde foi celebrada uma missa de corpo presente, uma das últimas naquele templo católico até então.

Dona Maria Amélia faleceu no dia 06 de outubro de 1988, terminando sua jornada nessa vida e deixando um legado inestimável para os seus familiares e amigos. Uma herança de fé inabalável em Deus e Nossa Senhora Aparecida, de luta e de muita força ao encarar as tragédias da vida.

Pessoas como a Dona Maria Amélia de Oliveira (pioneira discreta de nossa cidade) que, ao chegar ao nosso município quando por aqui só existiam mata fechada e poucas estradas poeirentas, que lutou junto com o seu marido para desbravar esse sertão bem antes do nosso fundador unir as duas vilas (Pereira e Brasilândia) e assim nascer Fernandópolis, merece o nosso total respeito, a nossa consideração e uma singela homenagem.

Qual homenagem? No próximo dia 02 de dezembro de 2025, a Câmara Municipal de Fernandópolis votará um projeto de lei que prevê a nomeação de uma pequena pracinha com o seu nome. 

É uma praça bem pequena, discreta, mas com muito significado, pois ali marca os limites do seu antigo sítio no qual trabalhou duro na lavoura de café e criou os seus oito filhos e enteado após ficar viúva aos 33 anos de idade. A praça se localiza em frente à escola ETEC.

Parabéns e muito obrigado, vovó! A senhora foi uma guerreira e uma pioneira discreta de Fernandópolis.

OBS: dedico este artigo ao primo José Cândido de Oliveira (filho do enteado que Dona Amélia ajudou a criar) falecido na última sexta-feira, dia 28 de novembro de 2025, enquanto escrevia esse texto.

Prof. Dr. Carlos Eduardo Maia de Oliveira (Prof. Cadu) é biólogo e cirurgião-dentista; mestre em Microbiologia e Doutor em Geologia Regional com ênfase em Paleontologia de Vertebrados; professor EBBT; coordenador de Extensão do Instituto Federal de São Paulo, Campus Votuporanga e Curador Voluntário do Museu de Paleontologia de Fernandópolis

O texto é de livre manifestação do signatário que apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados e não reflete, necessariamente, a opinião do 'O Extra.net'.

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