José Renato Se

A Redenção pela Arte: uma experiência religiosa

A Redenção pela Arte: uma experiência religiosa

Por José Renato Sessino Barbosa - Professor

Por José Renato Sessino Barbosa - Professor

Publicada há 8 anos

Há trinta anos assisti à refilmagem da película “O Fio da Navalha”, dirigida por John Byrum. Foi um dos poucos “remakes” que gostei. Ambos os filmes – tanto esse quanto o de 1946 – são fiéis à obra de Somerset Maugham.


Numa passagem da obra, no momento em que o protagonista Larry desembarca na Índia, às margens do Rio Ganges, para fugir de uma “horda” de meninos que lhe suplicam rúpias em troca de serviços, se atira nas águas e cai dentro de um barco, no qual há um homem que lava pratos. O norte-americano descobre que ele é o dono daquele e das demais embarcações no entorno. O hindu afirma: “- Sou um homem rico. Porém, isso não é o mais importante. Todas as coisas são uma experiência religiosa”.


Larry passa a auxiliá-lo na tarefa.


Essa é uma repetição de um princípio hinduísta: Deus se subdivide nas coisas. 


Portanto, realizá-las, é uma experiência divina.


Vivi uma situação semelhante.


Confesso, depois de trinta e três anos em salas de aula, não saber responder se o magistério é uma maldição ou uma bênção.


Sexta-feira passada, depois de vários pedidos, consegui atender a solicitação de uma das minhas turmas: os estudantes da primeira série B, do Ensino Médio, no JAP, já haviam me cobrado a leitura de um conto que publiquei na coletânea “Aquarela” em 2014. Junto com o meu estão os dos amigos e confrades Gil Piva e Osvaldo Secatto.


Recebi a informação da professora Ana que o volume fora devolvido de empréstimo e estava disponível. Felizmente, o mesmo circula muito. São muitos estudantes a requisitá-lo e a lê-lo.


Fim do intervalo retornava a sala dos professores para recolher meus diários. Encontrei no saguão da Escola minha aluna Samyra, da primeira série B, com quem teria aula logo após o final do intervalo.


Como sempre brinco com os estudantes, comentei: - Vai fugir?


Carinhosamente, respondeu-me que era uma necessidade, pois, sua mãe viria buscá-la para uma consulta odontológica já agendada. Externei-lhe meu pesar. Lamento as ausências dos estudantes.


Apenas disse-lhe que faria a leitura do conto.


A estudante imediatamente dirigiu-se a sala de aula, afirmando não prescindir do momento.


Fiquei satisfeito e com o ego inflado.


Iniciamos os trabalhos. Procedi à leitura. Todos a ouviram no mais absoluto e respeitoso silêncio. Ao final, alguns segundos de pausa, muitos aplausos. Fiquei comovido. De fato, gostaram.


Pediram-me para realizar a leitura de novo conto. Comecei a ler “A Carona” de meu fraterno confrade Gil Piva. Enquanto lia-o, tive um insight. Interrompi. Perguntei-lhes se não tinham interesse em conhecer uma das minhas referências na produção de meu trabalho: “Tempo”. Um híbrido de conto e poesia.


A fonte em questão é Fernando Pessoa. Maior entre todos os poetas. Minha opinião. De seu heterônimo Álvaro de Campos, o poema “Tabacaria”. O maior dentre todos os maiores. Também, minha opinião.


Qual a razão de interromper a leitura?


Não era meu intento interrompê-la. Todavia, retirar-me da sala por alguns instantes, até locomover-me à Sala de Leitura, pegaar o exemplar do gigante luso e retornar à sala de aula. Enquanto isso, os estudantes continuariam ou não a leitura, no respeitoso e inteligente silêncio que se portavam.


Cínico, pensara num teste.


Veremos se de fato gostam e respeitam a literatura em particular e o saber no geral?


Até então, construi uma empatia muito forte com a classe. Não que não tenha com as demais. Porém, na primeira série B há uma participação qualificada de maneira geral. Nas demais há um ou outro que não demonstram o mesmo compromisso.


Deixei a classe. O silêncio e a atividade mantiveram-se. Permaneci alguns segundos do lado de fora a ouvi-los. A situação era a mesma.


O estudante Adriel assumiu a leitura. Fora a frente e procedeu-a.


Caminhei lentamente pelo corredor, a situação permanecia igual.


Na “Sala de Leitura” retirei o exemplar do amado Pessoa e não ouvia ruídos ou tumultos, próprios de salas de aulas cujos professores, por alguma razão, são obrigados a ausentarem-se momentaneamente.


Retornei calmamente. O status-quo inalterado.


Entrei sem aviso prévio. Permaneceram com a mesma postura.


A pedidos, li os últimos períodos do conto do Gil. Aplaudiram de forma entusiasmada. Mais comoção.


Li “Tabacaria”. Monumental em qualidade e extensão.


Após concluí-lo, houve palmas.


Gostaram da experiência.


O estudante Lucas sugeriu-me que lesse,  semanalmente, poemas. Um pedido em particular: o grande Castro Alves.


O sinal e o contentamento do trabalho bem realizado impediram-me de fazer maiores considerações. Talvez a emoção nem me possibilitasse tal exercício.

Apenas agradeci e me retirei para outra classe.


Em casa, após o trabalho, lembrei-me da passagem do filme supracitado. Do escritor Maugham em particular e do hinduísmo.


Não tenho dúvida: vivi uma experiência religiosa. No sentido de um contato com o divino, ao realizar o trabalho, com a participação da turma, como se espera de forma plenamente satisfatória, significativa.


Mais ainda: uma certeza: mesmo que a humanidade seja – e é – um projeto fracassado, há seres que fogem à regra ou podem fugir. O caminho da fuga quer dizer da redenção, é a Arte. A Arte de gênios, cujas penas deixam marcas e aprendizados. Mesmo que não venhamos a alcançá-los, sei de meu limite: “Não sou nada. Nunca serei nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo...”.


Querido Fernando Pessoa, mais uma vez ensinaste uma rica e viva lição.


Nesse momento o magistério foi uma bênção.



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