Gil Piva

Ora, bolas

Ora, bolas

Por Gil Piva

Por Gil Piva

Publicada há 8 anos

Há quase sete anos sem praticar nenhum tipo de atividade física, notei que a pior indisciplina que existe é a indisciplina do corpo.


Dias atrás promovemos uma partida de futebol entre os alunos e os professores. Adivinhem, para nenhuma surpresa minha, quem perdeu? Nós, claro, os reféns da idade e do sedentarismo.


Voltando à indisciplina, fiquei abismado com o modo como o corpo reage (ou melhor, deixa de reagir) aos comandos do cérebro. O Cérebro diz “bloqueie o chute!”; mas quando a perna, existencialmente solitária avança rumo ao chute adversário, nem a bola nem o adversário estão no mesmo espaço-tempo de antes. Ou seja, o intervalo entre a ordem e a obediência trata-se de um rigoroso declínio ocultado pela curva dolorosa da idade.


Para meu espanto, consegui correr quase quinze minutos sem enfartar. E aprendi uma grande lição: futebol nunca mais, principalmente se for contra a moçadinha.


***


Regresso a uma angústia inexplicável toda vez que entro numa biblioteca pública.

Há um ditado que diz que para ser escritor três fases precisam ser rigorosamente cumpridas. Primeiro, deve-se escrever (bem, se possível) o livro; segundo, empatar, no mínimo, um acordo com uma editora, para publicá-lo; por último, e o mais difícil, tornar-se lido.


É este último ponto que me assombra nas bibliotecas. Existe uma infindável lista de obras e autores sobrepostos nas prateleiras, a mercê do tempo e das traças.

Em tese, todos conquistaram a façanha de escrever e publicar (inclusive, a façanha de serem selecionados e distribuídos por órgãos governamentais). E daí?, pergunto-me eu. A maioria dos escritores são desconhecidos e esquecidos, e talvez até um ou outro poderia nos render um valor literário obscenamente inquestionável – se tivesse sido lido com a devida atenção.


Enfim, o que me assusta não é a acidez das lombadas, feito lápides cravadas na consistência do papel, ostentando prematura e inexplicável morte literária, mas a insensatez do anonimato.


Sei que é impossível lermos todos os textos escritos espalhados mundo afora, e que precisamos de alguém, um crítico, quem sabe, para nos refinar isto ou aquilo, este ou aquele outro.


Infelizmente, o jogo da arte pertence ao jogo da vida. Daniel Piza, entre seus melhores Aforismos sem juízo, acertou ao dizer que “Nada é puro. Tudo é quase”.

Bom fim de semana a todos.



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