Do outro lado da calçada observei os dois meninos caminhando. Não era pela semelhança física – que não permitia engano –; eram irmãos. Além disso, os conheço, são meus alunos. Sabia que iam para uma atividade de treino na escola. Contentes e despreocupados, não me viram. Seguiam seu caminho com a descontraída alegria que somente a infância permite.
Por mais apressada que estivesse aquele momento singular impediu-me de seguir meu rumo. A beleza da cena não permitia ir adiante: além de estática permaneci em êxtase.
Por um breve instante aquela cena me retirou da órbita das preocupações cotidianas. Voltar pra casa, tomar o café da manhã com a filha que está em férias da faculdade, preparar almoço, digitar e corrigir o texto da próxima coluna do marido, preparar provas, limpar casa....; ah tudo isso pode esperar.
O regozijo é mais urgente!
Os olhos acompanhavam os pequenos caminhantes e a inocência desse trajeto fez com que minha alma transbordasse de esperança. Não se tratava apenas de um conceito, amorfo e inatingível. A sensação tomou forma. Impregnou-me de tamanho bem estar que, mesmo agora, quando tento expressá-la para compor esse texto fica a certeza que palavras não conseguirão a apropriada e perfeita tradução desse momento único.
Quem me dera ser poeta.... Somente a poesia tem poder de transmutar sentimentos em exato sentido.
Quem dera a ternura desse ato pudesse apaziguar o sofrimento desse mundo tão sem direção. Confortar os que clamam por justiça. Despertar e adoçar corações e mentes daqueles que tem o dever e a responsabilidade de romper com ciclo, vicioso e viciante, da miséria, da fome e da exploração.
Quem dera o caminhar despreocupado da inocência e da alegria pudesse ser de todos os meninos, de todos os lugares.