Sérgio Piva

Só sei que foi assim

Só sei que foi assim

Por Sérgio Piva

Por Sérgio Piva

Publicada há 8 anos

            As cidades têm suas histórias oficializadas em livros, mas também têm outrosregistros pitorescos gravados nas lembranças de seus habitantes e transmitidas oralmente por meio do “ouvi falar” ou “alguém disse”. São as lendas urbanas que surgem da imaginação das pessoas ou de fatos ocorridos quase como foram contados, acrescentando-se novas circunstâncias, mais detalhes e, geralmente, exageros que não existiram originalmente.


            Como nossa cidade não foge à regra, ouvi contar uma história, lá pelo final da minha infância, início da adolescência, portando, não há tanto tempo assim, sobre um assassinato ocorrido no município.Dizem que alguém, não me lembro de nomes, se é que havia algum, matou outra pessoa com um tiro no peito, testemunhado por muitos populares, pois ocorrera no centro da cidade.


            O autor dos disparos foi preso e em seu julgamento teria sido defendido pelo renomado advogado criminalista à época Dr. Fernando Jacob. Além de brilhante jurista e atuante político, “Dr. Jacó”, como era conhecido popularmente, foi personagem de várias lendas urbanasem razão de sua atuação marcantena área do direito e de grandes vitórias em tribunais do júri.


            Voltando ao caso, a história conta, ou seria melhor usar o convencional “reza a lenda”, que o “Dr. Jacó” conseguiu provar aos jurados do tribunal que a vítima não morrera em razão do tiro recebido no peito, pois antes de ser alvejada, por possuir uma grave doença no coração, teve uma parada cardíaca e faleceu, somente depois a bala atingira seu coração. Defesa que determinou a absolvição do réu.


            Mesmo depois de partir deste mundo, o Dr. Fernando Jacob ainda se meteu em outro julgamento, pois, segundo outro célebre advogado, Dr. Ricardo Franco de Almeida, ao realizar uma de suas defesas no tribunal, justamente na sala onde hoje está afixado um quadro com a foto do Dr. Fernando Jacob, nomeada em homenagem a ele, garante que, ao final de sua exposição, soube que estava com total razão em seus argumentos na defesa do réu, já que, ao termina-la, percebeu que a imagem do “Jacó” piscara para ele, como que certificando a veracidade de suas palavras. Assim o próprio Dr. Ricardo Franco afirmou.


            Outra história antiga, que já correu muitas rodas de conversa, contava que um indivíduo inventou uma máquina que produzia cédulas falsas de um cruzeiro, moeda da época. Eramumas verdinhas lançadas na década de setenta, que trazia no anverso a efígie da república e no verso a imagem do edifício da antiga Caixa de Amortização, e lembram muito as notas de um real de hoje.


            O tal inventor, não se sabe por qual motivo, resolveu vender sua criação e negociou a engenhoca com um conhecido da praça. O comprador, depois de comemorar a aquisição, com sede de lucro, não perdendo um minuto de seu precioso tempo, colocou o banco particular para funcionar.


            No entanto, depois de várias tentativas frustradas, em diferentes dias da semana, em várias posições, ritmos, graus de angulação, ventilação e abafamento do ambiente, tipos de iluminação diversos e períodos do dia alternados, não conseguiu produzir uma cédula sequer, nem para fazer remédio, como diriam naquela naquele tempo.


            Não teve dúvidas, foi até à delegacia de polícia e denunciou o malandro. Me refiro ao vendedor da máquina de fazer dinheiro. Contou em detalhes ao Dr. Divino, o delegado, todoo ocorrido, suas inúmeras tentativas de fabricar a cédula, sua frustração pelo insucesso da empreitada e, por fim, sua indignação com o embusteaplicado por um camarada, dando o nome e endereço do quase-amigo.


            Levado à delegacia, o ilustre inventor rebateu todas as acusações e garantiu que a engenhoca tinha procedência e funcionava perfeitamente. Argumentou que o cliente não soube manuseá-la por falta de habilidade. “Pura incompetência, Doutor”, falou ao delegado, finalizando sua defesa pseudo causídica, contam.


            O Dr. Divino, com toda sua humanidade, não teve dúvidas, prendeu os dois compadres, sob protestos de ambos e acusações recíprocas, gradativamente transformadas em xingamentos e ameaças de agressão. Se contaram quanto tempo ficaram engaiolados, não me lembro.


            Pode ser apenas coincidênciame lembrar dessas histórias justamente na data de hoje. Também pode ser que outras pessoas tenham versões diferentes para os acontecimentos relatados. Talvez até indaguem se realmente ocorreram. Só posso dizer, utilizando o bordão do personagem Chicó, da obra o Auto da Compadecida, do brilhante Ariano Suassuna, que “não sei, só sei que foi assim”.



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