
Recentemente, dois casos chocaram a opinião pública brasileira: um pai filmado agredindo a própria filha de três anos com um chute em Francisco Beltrão (PR) e um missionário que espancou o filho de forma tão violenta que a criança não resistiu, em Viamão (RS). Diante de situações assim, a indignação é inevitável, afinal, estamos falando de agressões cometidas justamente por quem deveria proteger.
Mas, por mais difícil que seja admitir, a violência faz parte da condição humana. Mesmo em uma época marcada por avanços tecnológicos e acesso à informação, continuamos convivendo com altos índices de violência doméstica, feminicídio e maus-tratos contra crianças. A evolução técnica não garantiu, necessariamente, evolução emocional.
Essa reflexão aparece até mesmo na narrativa bíblica, pois o primeiro homicídio registrado acontece entre irmãos, quando Caim mata Abel. Antes disso, Deus o alerta de que impulsos destrutivos o cercavam e que cabia a ele dominá-los. A mensagem continua atual: sentir raiva, inveja ou frustração é humano, mas agir de forma violenta não é inevitável.
Freud mostrou que todos possuímos impulsos e desejos inconscientes que podem se manifestar de diferentes formas. Quando não são reconhecidos e elaborados, podem resultar em comportamentos destrutivos. O desafio não é eliminar emoções negativas, mas aprender a administrá-las.
Por isso, acredito que uma das tarefas mais importantes da educação seja desenvolver o autocontrole, também chamado de domínio próprio. Muitos homens, por força de condicionamentos culturais e até instintivos, tendem a responder a situações desafiadoras com agressividade ou imposição de força. No entanto, a verdadeira força não está em dominar os outros, mas em dominar a si mesmo.
Como pais e sociedade, precisamos olhar para a história humana com o desejo de melhorar a cada geração. No meu livro "Bom Pai, Mau Pai", utilizo a trajetória do rei Davi para refletir sobre esse desafio.
Embora tenha sido um grande líder, guerreiro e administrador, ele falhou na educação dos filhos mais velhos. Somente mais tarde, na criação de Salomão, conseguiu construir uma relação mais equilibrada, contribuindo para a formação daquele que seria reconhecido como o homem mais sábio de seu tempo.
Se quisermos evitar novas tragédias, precisamos ensinar nossas crianças a lidar com emoções, frustrações e conflitos. O autocontrole não nasce pronto, ele é aprendido, cultivado e transmitido de geração em geração.
Por: Fausto Flor Carvalho é médico pediatra, mestre em Educação e autor de "Bom Pai, Mau Pai
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