Rodrigo Daum

E o vidro se quebrou...

E o vidro se quebrou...

Por Rodrigo Daum - Professor de Redação e Gramática em Escolas Particulares e Cursinhos

Por Rodrigo Daum - Professor de Redação e Gramática em Escolas Particulares e Cursinhos

Publicada há 8 anos

Na última sexta-feira, foi ao ar o último capítulo da novela das 21 h, “A lei do amor”, de Maria Adelaide Amaral e exibida pela Rede Globo. Quando, antes da estreia,vi a chamada, percebi algo contraditório no título e me perguntei: “O amor segue regras, obedece a leis”? Para achar uma resposta possível,fui buscar em meu repertório pessoal algo que sanasse tais dúvidas. Encontrei uma frase de Carl Jung que diz: “Onde o amor impera, não há desejo de poder e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.”Percebi que o novo enredo se desenrolaria por esse viés. Dessa forma, o que o amor é capaz de suportar?


Dentre as várias tramas possíveis, tínhamos a do casal Isabela e Thiago. Dois jovens apaixonados, que precisariam superar um abismo social e expedientes escusos de terceiros. Devido à conspiração maléfica que se montou ao redor deles, a desconfiança começou a pairar sobre o namoro, o qual terminou de forma aparentemente trágica.


Isabela, que supostamente estava morta, volta para se vingar. Debochada, dissimulada, má e com a nova identidade de Marina, tem sua vingança alcançada. Quando se dá conta, porém, do que estava prestes a fazer consigo mesma, percebe que sua essência não é aquela e acaba por desistir.


O gênero novela é conhecido por seus finais felizes; esse não foi um deles e acredito que muitos não tenham entendido o propósito da autora. Porém, foi um final muito lírico e com beleza significativa além de muito coerente. Dado isso, consegui responder a pelo menos uma das perguntas: o amor não consegue suportar tudo. Na busca pelo poder, sobraram dois estranhos que se cruzam na multidão e mal se reconhecem. Triste? Muito! Poético? Também!


A empatia é uma das maiores qualidades do ser humano. Ela nos dá a chance de nos colocar no lugar do outro. Embora eu sempre achasse a máxima “E o vidro se quebrou” muito bonita, não entendia exatamente seu significado.


Às vezes, só entendemos certas situações quando somos colocados diante de certos desafios. Quando assisti ao último capítulo da novela, entendi perfeitamente o que a autora e o que Jung quiseram dizer. Na queda de braço, a balança do amor se desiquilibrou. O tempo que ficaram longe um do outro foi crucial para que a mudança íntima ocorresse e para que eles não se reconhecessem.


Esse é o maior medo do ser humano quando há um desentendimento. As falas de “Eu não te perdoo”, logo dão lugar à reconciliação. E nesse novo recomeço, a metáfora do vidro quebrado, fazendo alusão à perda da confiança, na verdade se refere à mudança sofrida por ambos os lados, a transformação. Mas quando ainda existe o amor, e isso é o irracional falando mais alto, opta-se pela volta porque sabe-se que quanto mais tempo passarem longe um do outro, as diferenças se tornarão cada vez maiores. Esse novo “eu” é o maior abismo ao qual o amor não supera, sendo mais fácil vencer uma “estupidez” como diria o poeta.


Não entendi isso por muito tempo, mas quando a gente passa pela experiência da separação, assimila que o tempo pode nos modificar. Dentro desse contexto, o sofrimento é positivo porque nos faz apreender questões que livro nenhum ensina, leitura alguma é capaz de traduzir.



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