Comecei a ouvir um tec...tec...tec...no telhado. Era o barulho dos pingos esparsos da chuva que se anunciava. Chegava de mansinho, trazendo com ela uma brisa fresca e a sensação de alívio:do calor, da poeira, da terra na garganta, da secura na alma.
A primeira sensação é de alegria,a chuva varre os telhados, limpa o chão, molha a terra, mata a sede, enche a esperança. Logo vem a apreensão, o vento é forte, balança a telha, sacode a porta, traz a ansiedade.Mais um pouco, desperta o medo, o travão estremece a calma, o relâmpago clareia a agonia e o raio corta a tranquilidade ao meio.
A chuva é benção e desgraça, euforia e pânico. Seu segredo repousa na quantidade e intensidade. Revelado, segue guardado, pois queremos a chuva, desejamos molhar o rosto, ainda que a água nos encharque a roupa e nos arraste pela rua.
A arte imita a vida como a chuva arremeda nossas emoções.As sensações se convertem em água, onde a mente é criatura e cria a dor.
Como a chuva limpa o telhado, gostaríamos que as emoções lavassem, com suas sensações, o teto sobre nossas vidas. Difícil, porque o banho da chuva não esfrega, somente escorre pelos veios e caminhos traçados pelas telhas.
Se o trovão é o grito que estava guardado na garganta da nuvem, então não faz diferença deixar sair o que está entalado no peito. A tempestade não acalma, apenas nos deixa perdidos entre os cômodos da casa e angustiados entre os galhos agitados das árvores.
A chuva branda é que acalma e com voz suave fala aos ouvidos sobre como faz bem suas águas. Nos faz lembrar do quanto já fez germinar e que, mesmo nas noites que pareciam tão escuras,nos fez adormecer.Aindano dia seguinte, foi capaz de deixar o cheiro de seu toqueao derredor, até dentro do ser.
A voz é que pode dizer, ela que pode acalmar, não é o trovão, nem mesmo o silêncio. Ela lava, molha e faz brotar até a raiz que parece morta, escorrendo suavemente pelos veios, pelas veias, aguando o que já foi plantado.
Tec...tec...tec...a chuva já foi embora. Deixou seus pingos, sua voz sussurrando no telhado. Pingando acaba e recomeça a qualquer hora. A chuva, às vezes, molha mais dentro que fora. O ciclo nunca acaba, dentro e fora, pinga e jorra, seca e molha, murcha e reflora. Agora, parece que o sol abriu. É novamente abril.