HISTÓRIAS DO T

Lembra da missa de Domingo de Ramos?

Lembra da missa de Domingo de Ramos?

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 8 anos


Lembro que antigamente na época da quaresma, como agora, durante os quarenta dias, ninguém se atrevia comer carne vermelha. Era pecado mortal, ensinava a Igreja, asseveravam os nossos pais. Carne branca, só se fosse de peixe. Então, durante a quaresma o povo daqueles tempos buscava mistura pescando nos riachos, rios, lagoas e açudes. Outra saída, era comprar a sardinha em lata ou a manjubinha seca à granel  que era encontrada em sacas nas mercearias e casas de secos e molhados. Naqueles tempos ainda não havia sido inventado os supermercados, nem cheques pré-datados e cartões de crédito. Era o tempo da caderneta de fiado!


Lá naqueles tempos que ficaram longe, nessa época do ano, respeitoso,  o povo se resguardava. O pessoal da roça, por exemplo, evitava sair de casa à noite, porque nesse período do ano, todas as “coisas ruins” andavam soltas e fazendo estripulias pelo mundo. Na quaresma, diziam os antigos, era tempo de aparições, assombrações e lobisomens. Eles garantiam que nas noites de lua cheia, andar à noite pelos estradões, era certeza de encontrar pela frente um lobisomem ou pior ainda, dar de cara com a Mula Sem Cabeça, correndo desembestada pelos pastos, soltando um canudo de fogo pelo pescoço! Era tempo da Mulher de Vestido Branco e de outras assombrações perambularem sem rumo pelos caminhos do mundaréu.


Outra coisa comum no tempo da quaresma eram as promessas que o povo fazia. Os homens deixavam a barba crescer e as mulheres não cortavam o cabelo. 


Aqueles que deixavam a barba, na maioria dos casos, se propunham largar o “pito, o cigarro palheiro”, ou cortar o “mata-bicho, a pinguinha de todo santo dia”. Também se faziam promessas pedindo a cura de uma ou outra doença e até para se ter boas colheitas. E o povo levava essas coisas a sério e ao pé-da-letra!


As violas e as sanfonas silenciavam respeitosas e os tradicionais bailes de sábado à noite eram suspensos. Durante a quaresma, nem pensar. Os instrumentos eram guardados para depois voltar a animar as noites do sertão, no sábado de Aleluia. Aí o pau quebrava bonito!


No “Domingo de Ramos”, como amanhã, dia tradicional que marca a abertura da  Semana Santa, o povo da roça se organizava em caravanas lotando caminhões e feitos romeiros, seguiam para a cidade para assistir a missa. Nesse dia, as pessoas levavam folhas de palmeiras decoradas com laços de fitas ou em forma de arranjos trançados para ser abençoados durante a cerimônia religiosa. Era uma coisa bonita de se ver o capricho e a festa que o povo fazia com seus ramalhetes de folhas de palmeiras.


Essas folhas de coqueiro eram guardadas durante o ano todo e servia para ser jogadas ao fogo do fogão de lenha durante dias de  tempestades. Enquanto as folhas ardiam ao fogo, o povo em prece pedia à Santa Bárbara e São Jerônimo para acalmar o temporal. Lembro-me que nessas ocasiões, meus pais chamavam todos os filhos para ficarem agachados debaixo da mesa da cozinha, enquanto eles continuavam alimentando o fogo com aquelas folhas benzidas. A cada relâmpago e trovão, diziam sempre: Santa Bárbara, São Jerônimo!


         Na semana seguinte, na Quinta Feira Santa, depois do meio dia, tudo parava. Ninguém capinava, batia martelo, cortava lenha no machado ou serrava madeira. Facas, canivetes e tesouras eram guardados.  O rádio era desligado e as pessoas conversavam o mínimo possível e sempre em voz baixa. Dizem os antigos, que nesse dia, nem os pássaros cantavam!


Esse ritual era mantido no dia seguinte, a Sexta Feira da Paixão.  Quem morava na roça seguia de novo para a cidade, para assistir a Paixão de Cristo, em preto e branco que passava o dia inteiro no Cine Fernandópolis e Santa Rita. Depois, à noite havia a grande e silenciosa procissão percorrendo as ruas da cidade, com o povo carregando velas, uns pagando promessa, acompanhando o cortejo descalços, crianças vestidas de anjos ou de santos. A procissão sempre terminava diante da Igreja Matriz, onde era montado um altar para a missa campal, seguido do triste canto da Verônica ao seu final.


Na manhã seguinte, o tão esperado sábado de Aleluia, o povo acordava animado. E logo bem cedo, com uma roupa velha de adulto, inclusive com um botinão bem velho, o pessoal montava um boneco, quase sempre recheado de palha de milho. Era o Judas, caprichosamente feito e prontinho para a festa da malhação. Lembro  que ele era dependurado num pau  ou num poste, sempre na frente das casas da colônia. E quem passava diante  do Judas, vira as costas e cuspia no chão. Claro, Judas, o traidor de Jesus, o infeliz que se “vendeu por trinta dinheiros” era sim um canalha!


 E aí amigos,ao meio dia em ponto, o pau quebrava bonito. Depois do primeiro rojão, começava a malhação, com as crianças e os adultos atirando pedras e paus no boneco, soltando junto, o palavrório contra o traidor de Nosso  Senhor! No final, os homens soltavam rojões em cima do boneco, outras vezes davam tiros de espingardas, para depois do boneco caído ao chão os moleques saírem chutando, em grande algazarra, o que restou de Judas.  No final, juntavam tudo e faziam uma grande fogueira. Pronto, tudo estava consumado e todo mundo de alma lavada, porque o Cristo havia sido vingado e o traidor Judas Escariotes, castigado como merecia! Depois disso, o povo começava cuidar dos preparativos para o grande Baile de Aleluia. Assim, nossa história continua na semana que vem, que não por acaso, é sábado de Aleluia. Então, até lá.



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