Carlos Eduardo

Quando a humanidade aprenderá a ser mais humana?

Quando a humanidade aprenderá a ser mais humana?

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Por Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Publicada há 8 anos

“Era o verão de 1916, estava indo de Bagdá a Istambul e testemunhei cenas terrivelmente brutais quando chegava a Alepo. Foi o chamado assassinato em massa e pilhagem do povo armênio. Os otomanos haviam matado os jovens e forçado homens, mulheres e crianças rumo à aniquilação, enquanto eram açoitados por soldados armados. Havia muitos corpos espalhados pela estrada. Conforme viajava pelas margens ocidentais do rio Eufrates, vi vários cadáveres boiando na água. Numa tarde, chegamos ao local onde os soldados haviam acampado; eles permitiram que um grupo de cerca de 400 armênios também descansassem ali. Homens e mulheres cavavam a areia do deserto em busca de raízes e grama seca para matar sua fome. Uma mulher se aproximou e me mostrou as filhas de 18 e 19 anos de idade; suas cabeças haviam sido raspadas para não chamar a atenção dos homens ao redor. Ela me disse que as filhas estavam famintas e me implorou, em nome de Deus, para dar a ela algo para comer em troca de dois diamantes. Senti tanta vergonha que dei tudo que tinha e disse para ficar com as pedras preciosas para ela. Então, um senhor de idade se aproximou e me contou, em um francês perfeito, que seu filho de 10 anos de idade estava morrendo diante de seus olhos. Dei a ele um pão, ele o dividiu em dois pedaços, escondeu um deles sob a roupa e devorou o outro. Então, ele me perguntou: você está surpreso porque comi o pão ao invés de dá-lo ao meu filho? É porque sei muito bem que ele está destinado a morrer. É melhor guardá-lo para mim”(Relato deixado por escritor persa sobre as atrocidades cometidas pelo Império Turco-Otomano contra a minoria armênia há cem anos, e divulgado, recentemente, pelo portal de notícias na internet BBC Brasil).

           

            O relato anterior ilustra uma das maiores atrocidades cometidas contra um povo: o massacre dos armênios pelos turcos otomanos durante a Primeira Guerra Mundial. Esse genocídio ocorreu entre 1915 e 1916 e, de acordo com aAssociação Internacional dos Estudiosos de Genocídio (IAGS, na sigla em inglês), mais de um milhão de armênios foram assassinados ou morreram de fome ou doenças nas mãos de seus algozes turcos.


            Daquela época até os tempos atuais, parece que a humanidade não se compadeceu com a prática de extermínio deliberado, total ou parcial, de uma comunidade, grupo étnico, racial ou religioso denominado genocídio. Na Segunda Grande Guerra (23 anos após o massacre do povo armênio) houve a tentativa de extermínio dos judeus pelos nazistas. Fontes confiáveis indicam que cerca de seis milhões de judeus foram dizimados durante o holocausto (termo utilizado para descrever a tentativa de extermínio dos judeus pela Europa nazista).


            Atualmente, há intensa perseguição religiosa aos cristãos, principalmente na África e no Oriente Médio. Segundo a organização de caridade Open Doors, que monitora casos de violência e perseguição por motivos religiosos, a perseguição brutal contra cristãos aumentou nos últimos anos em alguns países. No ano de 2015, foram relatadas, no mundo,7.100 mortes de cristãos provocadas pela perseguição religiosa. Os países que mais perseguem os adeptos do cristianismo, de acordo com a Open Doors, são a Coreia do Norte, Nigéria, Congo, Quênia, Camarões, Chade, República Centro-Africana, Eritreia, alguns países do Oriente Médio e também a Índia.


            Por coincidência, enquanto este artigo estava sendo escrito, igrejas coptas (formadas por cristãos ortodoxos) foram alvos de dois atentados com bombas no Egito (país do Oriente Médio) em pleno Domingo de Ramos, dia 09 de abril de 2017. De acordo com reportagem do jornal espanhol El País, ao menos 44 pessoas foram mortas e uma centena ficou ferida nas cidades de Alexandria e Tanta (norte do país). O grupo extremista Estado Islâmico (EI) assumiu a autoria dos atentados. Detalhe: esses ataques ocorreram no Egito a apenas três semanas da visita do Papa Francisco aquele país.


            Como se não bastasse, atualmente ocorre na Síria um conflito que parece não ter fim, que já deixou mais de 400 mil mortos e provocou um êxodo de mais de 4,5 milhões de pessoas, o maior da história recente, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).


            Infelizmente, no último dia 04 de abril de 2017, em decorrência desse conflito, aconteceu outra tentativa covarde de massacre de civis, por motivos políticos, nos moldes de um genocídio: um ataque químico ocorreu em uma cidade no noroeste da Síria. De acordo com reportagem do portal de internet G1, a agência humanitária Union of Medical Careand Relief Organisations (UOSSM, sigla em inglês) declarou que o número de mortos já passa de cem e deve aumentar. Testemunhas afirmaram que viram várias pessoas no chão, muitas delas crianças, sem conseguirem se mover, com as pupilas contraídas, com espuma visível ao redor da boca, exibindo sinais claros de intoxicação. Há fortes suspeitas da utilização do gás sarin, que não tem gosto, não possui cheiro, é quase impossível de se detectar, altamente tóxico e considerado 20 vezes mais letal que o cianureto. Uma verdadeira cena de filme de terror.


            Todos ficam estarrecidos com relatos de massacres contra um povo descritos nos livros de História, mas é constrangedor ter o conhecimento de que essas atrocidades ainda ocorrem em pleno século 21. Será que não aprendemos nada a respeito de atos tão cruéis? Será que não há meios diplomáticos para evitá-los? A ganância pelo poder, os interesses políticos mesquinhos e o fanatismo sobrepujam o bom senso? Diante dessas barbaridades, fica a pergunta: quando a humanidade aprenderá a ser mais humana?

           

     

             

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