Dentre os vários legados culturais e folclóricos da humanidade, estão os contos de fadas, que em nossa cultura, devido à influência de nossa colonização europeia, é extremamente difundido.
Sua importância é fundamental para a formação da personalidade humana e está presente em várias civilizações. Caracteriza-se principalmente pelo maniqueísmo: os heróis, belos e fortes; as princesas, doces e angelicais, e os vilões ou vilãs (normalmente as madrastas), perversos e sinistros. A popularizada obra do austríaco Bruno Bettelheim, “A psicanálise dos contos de fadas” (1976), procura elucidar, através do viés psicanalítico, as razões e motivações psicológicas, os significados emocionais e simbólicos do inconsciente que estão subjacentes nessas narrativas fantásticas; é até hoje uma referência para muitos estudiosos.
Em sua gênese, não eram “historinhas” infantis; ao contrário, serviam de entretenimento, principalmente às mulheres (e consequentemente às crianças), que ficavam encasteladas no rigoroso inverno do continente europeu dedicando-se aos trabalhos de fiar e tecer. Assim, como forma de distração, comentavam acerca de fatos vividos ou fantasiados, que eram transmitidos oralmente para outros reinos e aldeias (quem conta um conto aumenta um ponto...). Nesse contexto, como a maioria das pessoas não sabia ler ou escrever, a tradição oral exerceu a mesma multifuncionalidade (lúdica, moral, cognitiva, catártica e até mesmo pragmática) que posteriormente exerceram o teatro, a ópera, a literatura, os folhetins, o cinema e as novelas.
Passados vários séculos, nos quais foram contadas e recontadas, essas narrativas serviram de inspiração: para o advogado e arquiteto real francês Charles Perrault (1628 -1703) que os compilou nos famosos “Contes de ma mère l’Oye” (tradução literal “Contos da Mamãe Ganso”, ou em português, “Contos da Carochinha”); para os filólogos alemães Jacob Ludwig Karl Grimm (1795 - 1863) e Wilhelm Karl Grimm (1796 - 1859), que reuniram centenas delas nos intitulados “Contos dos Irmãos Grimm”; e, para o sensível dinamarquês Hans Christian Andersen (1805 – 1875), considerado um dos primeiros escritores de histórias infantis, dentre elas ( os quase autobiográficos) “O Patinho Feio” e “O Rouxinol do Imperador”, ambas com finais felizes.
Quanto ao maniqueísmo expresso nas narrativas dos contos de fadas, creio que eles conseguiram se manter nas multifacetadas funções, anteriormente descritas, dentro de um contexto histórico e cultural restrito, apesar de ser difundido através da colonização e posteriormente pela literatura e, depois, por conta do cinema (leia-se, Walt Disney). Por mais paradoxal que seja, agora, num mundo globalizado, eles exigem outras funções: a estética e, por conseguinte, a ética.
Com a expansão da informação e dos conhecimentos, primeiramente, foi o mercado editorial que as ampliou com excelentes releituras: “Fita Verde no Cabelo” de Guimarães Rosa e “Chapeuzinho Amarelo” de Chico Buarque, são belíssimos exemplos “recontados”. Também tenho uma versão desse conto, que um dia pretendo publicar, que trata das questões ambientais.
No cinema, Shrek, aliou a sátira e o humor (reunindo inúmeras personagens do gênero, desconstruindo suas imagens - do vilão ao herói) ao inusitado: a princesa escolhe ser ogra.
Mais recentemente, a bela Angelina Jolie, interpretou a terrível Malévola. O repertório não muda muito em relação à história original (Perrault e posteriormente Disney). Com mais encantamento e sem o maniqueísmo habitual, o filme reconta, sob a perspectiva da personagem, a transformação da pequena fada alada protetora do reino de Moors. A mesma, em virtude da traição daquele que ela julga ser seu amor verdadeiro – o ambicioso plebeu Stefan, que lhe corta as asas –, se transforma em atroz e ressentida vilã e lança uma maldição à filha de seu desafeto.
Para garantir que o agouro se cumpra e para alimentar seu ódio pelo inimigo, passa a acompanhar a pequena princesa, que fica escondida na floresta. Lentamente, Malévola vai se metamorfoseando novamente em fada, na medida em que aprende, devido à sua desprezível maldição, o verdadeiro significado do amor. A mais temida e cruel vilã dos contos de fada (sinal dos tempos), quem diria, aprendeu a amar!