O ser humano é terminal e finito. Terminal porque tem uma dimensão temporal, isto é, sua jornada da vida há de se acabar em um momento, porque a vida tem um começo (nascimento) e um fim (morte). Finito porque lhe subjaz uma dimensão existencial que se origina da consciência e se reflete na percepção que cada um tem da vida, no sentimento de que cada um caminha para um fim.
A consciência de que terminalidade e finitude não se excluem, mas seaproximam e se complementam, permite ao homem transcender a dimensão temporal, ultrapassar os limites temporais e se fazer mais, ter um “apetite de infinito”.
Na terminalidade, devem ser prestados os cuidados paliativos ao enfermo.
“Paliativo origina-se de “pálio”.Pode-se extrair a imagem de “pálio” como um manto que recobre algo (o corpo) fragilizado; “pálio” evoca, em decorrência, singeleza, proteção, alívio. Um corpo humano necessita de receber singeleza, proteção, alívio para suas dores extremadas: o corpo é humano, único, irrepetível e deve ser recoberto, protegido, vestido com cuidado, respeito e reverência em todos os momentos de sua vida e, em especial, quando se aproxima de sua terminalidade por doença progressiva irremediável ou pelo envelhecimento natural e se encontra, exponencialmente, mais frágil e vulnerável.
Cuidados paliativos, assim, são aqueles cuidados aplicados ao paciente emum continuum,a partir do momento da identificação de uma doença progressiva e incurável, paralelamente a outros tratamentospertinentes a todas aspossibilidades de reversão da progressão da enfermidade. Os cuidados ao fim da vida, incluindo o envelhecimento,integram os cuidadospaliativos – aquela assistência que o paciente deve receber durante a última etapa de sua vida, diante do estado de declínio progressivo e inexorável, com a aproximação da morte.
Assim, os cuidados paliativos referem uma ação integrada, multidimensional, multiprofissional e interdisciplinar a fim de atender às necessidades dos pacientes e seus familiares quando a expectativa de vida do paciente é limitada pela evolução progressiva da doença que o acometeu.
Pode-se dizer que os cuidados paliativos têm fundamentação bioética, que sugere uma reflexão sobre a condição humana: o ser humano carrega uma biologia, uma biografia e uma história de convívio social. Requerem o aporte de um arsenal médico-farmacológico que minimize a evolução de sintomas edores. São parte integrante de intervenções multiprofissionais, que considerem o bem-estar e o alivio do sofrimento do paciente. Iniciam-se quando o curso da doençaou marcadores do envelhecimento se manifestam, em comum com outrostratamentos voltados para a remissão da doençaou para a redução de seus efeitos no corpo fragilizado e para o retardamento do envelhecer. Objetivam compreender e controlar as complicações clínicas manifestas, o que não significa retardar a morte, mas considerar que morrer é um processo natural dos seres vivos que pode ter as dores supervenientes minimizadas. Oferecem apoio psicológico e espiritual ao paciente e seus familiares, para viver bem tanto quanto possível e lidar com o processo do envelhecer, da doença e da elaboração do luto. Procuram dar, em suma, qualidade de vida digna e humana.
A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável. Sua intensidade não é mensurável, mas estratégias há que a mitiguem. De características físicas, fisiológicas e psicológicas, pode ser controlada por medicamentos, condutas fisioterapêuticas ou cirúrgicas.Sofrer é inerente à condição humana desde o nascimento, mas o maior sofrimento talvez seja aquele que fere a alma. Se sofrer tem um sentido e uma destinação, talvez careça de significação, que pode ser alcançada pela transcendência.
O importante nos cuidados paliativos é acolher, compreender, aliviar o sofrimento do ser humano no término de sua vida. Eles visam oferecer compreensão e dar um novo olhar para a dor, o sofrimento, o abandono, a solidão íntima que só o paciente experimenta e há de passar ante a expectativa da morte, e as incertezas daquilo que há de vir.
Os idosos doentes, em particular, vivenciam o padecimento, suas frágeis condições físicas e psicológicas, como que pressentindo os momentos difíceis que lhe restam ultrapassar. Neste ponto, a ética tem um compromisso fundamental na elaboração dos cuidados paliativos: humanizar tanto quanto possível a passagem e o fim da existência na Terra.