
A história do rádio fernandopolense é tão rica e fascinante, que merece ser contada em capítulos. A primeira emissora de rádio da cidade foi a Rádio Cultura, de Moacir Ribeiro, fundada na metade da década de cinquenta. Uma década depois, nascia a Rádio Educadora rural de Fernandópolis, fundada por Leodegário Fernandes de Oliveira, o Filhinho, lá pela metade dos anos sessenta. Daí para a frente começa a história, a rivalidade, a guerra pela audiência.
A Educadora entrava no ar trazendo um quadro de profissionais talentosos, do mais alto gabarito. A começar pelo técnico de som Antonio Luiz Vendrusco, o Careca, que era um tipo faz-tudo, meio que “Professor Pardal”, sempre resolvendo problemas e encontrando soluções inéditas para as complicadas transmissões externas ao vivo, como comícios, solenidades e até jogos de futebol. Os técnicos de som, Valdevir Romera e o Yoshio, também faziam parte desse time. Mas isso, é um capitulo à parte.
Do outro lado da técnica e sonoplastia, nos microfones daqueles anos dourados, vozes que encantaram uma geração, a começar por Ivo Fernandes, Wilton Marzochi, Adonai Cesar Mendonça, Joel Alves e Marcos Alberto, o Marcão. Por ali também passaram Valter de Castro, Edio Alves de Oliveira, Valter Mazzon, Ezupério Vitor Martins, Antonio Sanches, Pedro Gobbi, H.J. Hipólito, J. Pereira, Itamar Teles e tantos outros talentosos comunicadores.
Se a Educadora, tinha um grande time, a pioneira ZYR 90, Rádio Cultura de Fernandópolis, de “Moacir da Radia”, como ficou conhecido, tinha também um senhor elenco de artistas do rádio. A começar pelo lendário Nhô Cido, o primeiro animador sertanejo da história do rádio fernandopolense. Imitando um matuto, Nhô Cido fazia desfilar pelo imaginário do público ouvinte, uma legião de personagens, inclusive uma criação sua que ficou famosa, o personagem Cid Ribeiro, que muita gente achava que existia mesmo. Nhô Cido popularizou expressões como “poligrama, bicharedo de bão, cutuca a jurubeba e modão apaixonado”. Ele brincava fazendo rádio, às vezes ficava meia hora falando e interagindo com os ouvintes, sem tocar uma música e ninguém mudava de estação. Carismático, fez escola no rádio e era imbatível em seu horário, um verdadeiro fenômeno de audiência.
Nessa época, quando o telefone era uma raridade, o rádio fazia com perfeição a ponte entre o povo da cidade, das cidades vizinhas e da roça, servindo como um correio ao vivo, levando recados, avisos e notícias. Ainda na Cultura, mais tarde dando continuidade ao trabalho de Nhô Cido, surgia Nhô Dito e por último, já nos anos 70, o Nhô Sanches. Esses animadores fizeram história e hoje temos aí o conhecido Compadre Sanches, ao lado de Geraldo Rico e Delmo Marques, que ainda estão firmes na ativa.
Mas voltando lá atrás, nos tempos de ouro da ABÉ, a equipe de esportes da Cultura, comandada por Anésio Pelicione, o Matinê, revelando jovens talentos como Alaerte Vidali, João Mioto e Alcides Corsini, o Perú, era líder absoluta de audiência. Tempos depois, a Educadora montou um timaço imbatível, com uma programação esportiva que marcou época no rádio. A briga entre as duas emissoras era boa e a audiência era disputada palmo-à-palmo.
A Cultura também liderava em alguns horários como o programa “Roda Gigante”, apresentado por Deomir Bastos e havia ainda o programa do Tio Cândido. A Educadora não deixava por menos, dando o troco à altura com o Patrulha 1490, que mais tarde deu origem ao Rotativa no Ar. Nessa época, eu gostava de ouvir programa do Vovô H.J, voltado à colônia luso-brasileira, onde ele tocava os fados de Amália Rodrigues, algumas músicas de sucesso do jovem cantor luso Roberto Leal, e as famosas “historinhas” que carinhosamente dedicava às crianças, chamando todas de “meus netinhos”.
Pois bem, uma certa noite lá está o bom velhinho, lendo ao vivo um dos “reclames” de promoção de uma loja local. Leu o texto todo, inclusive uma nota de rodapé que avisava; “PS: este cliente pediu para cancelar o contrato de propaganda.” O sonoplasta ficou olhando prá ele, sem saber o que fazer. Vovô HJ abriu os braços e sapecou;” Ô ralhos, então é bom esqueceire tudo que acabei de falaire”. Bons e inesquecíveis tempos aqueles. Semana que vem tem mais. Até lá.