Jacqueline Ruiz

A paixão de conhecer o mundo

A paixão de conhecer o mundo

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Diretora Pedagógica

Por Jacqueline Ruiz Paggioro - Diretora Pedagógica

Publicada há 8 anos

Um dos grandes e urgentes desafios da atualidade é a questão educacional, ou melhor, como fazer com que  crianças e adolescentes que frequentam a escola sintam- se atraídos pelo saber.  No seu espaço semanal, Flores Doentias, Zé Renato, colunista deste periódico, publicou recentemente artigo intitulado “A Revolução que não rompe. Involui: a Escola. Porque se odeia estudar”, e nos fala de necessidade de renovação e reformulação do espaço destinado ao estudo, ao conhecimento. Concordo com o articulista e proponho também a necessidade de refletirmos sobre a questão da escolarização cada vez mais precoce das crianças pequenas.


A modernização trouxe em seu cerne a necessidade de independência das mulheres e o consequente ingresso destas no mercado de trabalho. No Brasil, o fenômeno é mais recente, em relação à Europa e Estados Unidos -corresponde ao final do século XIX - e fez, portanto, surgir a necessidade de espaços destinados a acomodar os filhos das mulheres trabalhadoras e a história da criação das creches é um processo que vem no bojo da implementação deste modelo capitalista. Mas é ao final dos anos de 1970 e inicio dos anos de 1980, também devido ao contexto histórico, político e social, que ocorre o maior número de reivindicações, culminando com a Constituição Federal de 1988 – a chamada Constituição Cidadã – que reconheceu como dever do Estado a garantia de creches e pré-escolas para as crianças de zero a seis anos de idade e que com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) n.9394/96 que, a agora denominada, Educação Infantil seja a primeira etapa da Educação Básica; isso implica, é claro, em obrigatoriedade de atendimento e consequente política publica de organização e financiamento que ficam a cargo dos municípios. Com isso, a maioria das políticas publicas voltadas para a implantação da educação infantil tem como parâmetro a escolarização, e, na grande maioria das vezes, desconsidera uma questão primordial: educação não significar escolarização, principalmente devido às peculiaridades da faixa etária em questão.


Boa parte da minha vida profissional dediquei-me a conhecer e aprender sobre a infância e espaços de educação infantil, e, o que mais me preocupa atualmente são as concepções acerca da educação oferecida aos “miúdos”.


A Educação Infantil tem um binômio imprescindível: o cuidar e o educar. Esse binômio é indissociável, principalmente para essa faixa etária. Não existe separação entre essas duas ações. Não pode haver uma professora que ensine a criança a andar, ouvir, falar... e uma pessoa que fique responsável pelos seus cuidados: comida, banho, troca de fraldas....  Para se trabalhar com criança pequena (e creio que com qualquer faixa etária) é preciso ter um  profissional que esteja apto a lidar com tudo o que vier junto.


Em muitos locais deste país, independente de ser rede pública ou privada, existe uma professora responsável pela educação e uma auxiliar (normalmente sem necessidade de formação específica) que fica responsável pelo “resto”. E o que é pior, legitimado pelo poder público que tem a responsabilidade de fazer cumprir a tal de LDB e corroborado por pais e comunidade em geral.


Muitas vezes ouço mães e pais de crianças pequenas estufarem o peito e dizerem com orgulho: “...meu (minha) filho(a) já está aprendendo o alfabeto na “escolinha...”; “...ele(a) tem aula de inglês, já aprendeu as cores precisa ver que gracinha!”; “...minha filha trouxe lição de casa. Precisa ver que lindo que é quando ela senta e começa a pintar a lição do número um...”; ou, “Na escola tal eles ensinam as crianças com computador”.


Me dá uma vontade louca dizer pra eles: Seu (sua) filho(a) precisa é BRINCAR!!!! Precisa mexer com água, areia, pedrinhas pauzinhos, folhas, tintas...! Ouvir histórias e causos, construir/destruir brinquedos, brincar com panela, martelo e alicate, comer fruta inteira, de preferência do pé! Precisa perguntar muitos por quês! Se ele(a) não fizer isso agora (quando pequeno/a), vai ter dificuldade quando for grande!  


Já fiz isso algumas vezes, fui até ridicularizada  e chamada de antiquada. Hoje limito-me a ouvir e pensar: lá vai mais uma criança pra fábrica dos enlatados (analogia ao filme “The Wall”, animação musical de 1982, dirigida por Alan Parker, baseada no álbum honômino do Pink Floyd – por sinal, excelente).


Por essa razão uso esses “Canteiros” para lançar a semente: vamos deixar a Infância recheada de coisas próprias dela para nutrir os pequenos com vivências e experiências e por quês, ai sim, quem sabe eles tenham paixão para conhecer o mundo!



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