Gil Piva

Microcosmos da Heresia

Microcosmos da Heresia

Por Gil Piva

Por Gil Piva

Publicada há 8 anos

Eu ainda não assisti ao filme A Cabana. Mas estou me preparando para tal empreitada. Não digo isso por ser ateu e, assim, parecer dificultoso me entregar a ele. Digo, pelo contrário, que me falta dispor de tempo.


Para quem não sabe, o filme é uma adaptação de um livro de mesmo nome, cuja história se baseia numa entusiástica viagem rumo ao encontro com Deus. Não vou contar muito para evitar spoilers.


Como sei disso se ainda não assisti ao filme? Ora, porque li o livro. E adorei, por sinal. Embora em muitos aspectos suas discussões propostas soem como autoajuda, o livro propõe uma reflexão interessante sobre o modo secular como se vê Deus. Detalhe: segundo seu autor, William P. Young, a história foi contada por um amigo que jurou ter passado por tudo realmente. E como o próprio Young ressalta: acredite quem quiser, ou quem puder.


Na verdade, acrescento que crer na veracidade dos fatos pouco importa. A discussão contra o senso comum do referencial divino alarga os questionamentos e, melhor, não estreita de forma simplista as respostas.


O que me incomoda de fato não é se o livro é ou não uma obra prima literária, mas como alguns evangélicos o consideraram pura heresia.


Aí temos duas observações a serem feitas.


A primeira, o “saber” destes evangélicos, nada aberto a diálogos; isso porque todo percurso reflexivo (principalmente se filosófico-religioso) precisa, para estabelecer suas bases conceituais enfatizar (guardem esta palavra) uma revisão teórica notada de sentido epistemológico.


O problema é que tal corrente filosófico-religiosa, se tanto, enfatiza suas práticas dentro de uma história bíblica que não recorre à natureza de uma investigação daquilo que fizeram deles o que são.


Outro fator, é a história do microcosmo do poder que toda instituição religiosa teme em perder; ou seja, compreender a fundo e contrapor como estratégias (a não ser que seja para atacar ou falar mal de seu rival) as características das sociedades e seus indivíduos termina por oferecer um risco de subjetivação da existência, diria Foucault. Desse modo, o controle das igrejas, ou qualquer instituição do gênero, e, de novo, sob esse risco, pode também ser posto em dúvida.


Dito de outra forma, e juntando os dois polos, se a reflexão for uma derivação da crença oferecida, opiniões podem ser expressas e convidativas a objeções.

Há, portanto, uma interdição da fé – onde é oferecida ambivalências a respeito: sagrado e impuro, vantagem e desvantagem, verdade e mentira, etc. – São relações bem definidas e análogas.


“Se Deus é tão poderoso, por que não faz nada para amenizar o nosso sofrimento?”. Trata-se de uma questão herética? Talvez. Contudo quem nunca perpassou de mansinho por esta trilha dolorosa e nada equivocada da vida?

O filósofo e colunista da Folha de S. Paulo Luiz Felipe Pondé, em seu livro Filosofia para Corajosos: pense com a própria cabeça, escreveu que “uma certa leveza de espírito é necessária ao cético [aqui eu incluiria os religiosos que colocam em xeque a história do filme e do livro]; do contrário ele pode virar um adolescente boçal que acha que é a primeira pessoa inteligente na face da Terra”.


Estou de pleno acordo. E diria mais. Todo pensamento que não toma consciência de si parece mais com uma neurose obsessiva que com um ideal de realidade. Trata-se de uma identidade religiosa surgida e verificada para fugir das inquietações do espírito (em todos os sentidos).


Pena que muitos não se deram conta disso diante de sua “onisciência” evangélica.



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