Em artigo, publicado na Folha de São Paulo de 13/05/2014, a psicóloga Rosely Sayão discorreu sobre a questão do desempenho e a participação das famílias na vida escolar de seus filhos. É claro que para as famílias de classe média que, portanto, valorizam a instrução, vale a pena investir nisso, e ai se explica o duplo pagamento: escola particular e especialistas para garantir o sucesso da aprendizagem.
Ela ainda discorre sobre termos constantemente usado nas escolas: pais presentes e parceria; e nos informa, amparada por pesquisas, que 70% do desempenho escolar deve-se ao apoio dos pais e conclui (metendo não só o dedo mas o corpo inteiro na grande ferida aberta de uma instituição milenar): “Agora, cá entre nós: se a escola só colabora com 30% do desempenho de seus alunos, por que mandamos nossos filhos a essa instituição, aceitamos pagar mensalidades tão caras e valorizamos tanto esse tipo de escola? Alguém sabe responder a tais questões?”
Creio que Rosely Sayão, assim como eu e muitas pessoas seriamente envolvidas com educação, sabemos muito bem responder a essas tais questões que se encerram em um ciclo vicioso e sempre procuram por culpados.
A questão, de tão simples torna-se complexa e ao mesmo tempo simplista: ora são os “gastos” com a educação: infraestrutura, alimentação (merenda), uniforme, material, livros, acesso às tecnologias; ora são a formação (ou a falta dela), ora a baixa remuneração e a consequentemente falta de professores (e mais perversamente ainda as faltas dos professores); e agora, a bola da vez: o envolvimento dos pais. Enfim, uma série de “bodes expiatórios”.
Não é preciso elencar outros tantos culpados para o fracasso da escola, principalmente a escola pública. É imprescindível inverter a ótica: é necessário e urgente assumir a responsabilidade pela educação de nossas crianças e adolescentes. Gasto é diferente de investimento, assim como educar não é somente instruir. Insisto, temos que priorizar e cobrar de nossos governantes e representantes um maciço e sério investimento em políticas públicas voltadas a melhoria das condições da educação: verbas, infraestrutura, formação, política salarial. Investimento também em saúde pública, melhor distribuição de renda, e desmantelamento da corrupção que grassa em nosso país.
Como disse, certa feita, o Ney Matogrosso à TV portuguesa: queremos política padrão FIFA.
Hoje as condições na política educacional são melhores que há vinte anos, mas precisamos mais, e mais, e mais.
Investimento é isso, é suprir com o que existe de melhor e sempre. Não podemos abrir mão disso. Os países do norte da Europa, o Japão, a Coréia do Sul, são exemplos.
Mas, investimento somente não dá suporte para garantir o retorno. Meninos e meninas que aprendem precisam aprender a gostar de aprender. (Esse o segredo! E a resposta!).
Conheço escolas de várias partes deste imenso planeta; algumas porque trabalhei, outras porque visitei pessoalmente ou por contato com pessoas envolvidas em seus projetos, outras ainda por pesquisas para estudo ou pelas notícias veiculadas na mídia. Das que conheci, duas delas (na Europa) tinham “investimento” de cerca de € 1.000/mês per capita e uma (no Brasil) com “gasto” inferior a R$ 200/mês per capita e com resultados semelhantes: davam conta do que se propunham.
O segredo: seus PPP (Projeto Político Pedagógico) construídos e legitimados pela comunidade escolar, equipe de profissionais atuantes e comprometidos e família participante, todos em compasso com a responsabilidade pela educação de suas crianças.
Com muita certeza posso afirmar: não dá pra tratar todas as escolas como se fossem únicas. Cada uma tem que descobrir (através de investigação cientifica mesmo) a sua vocação, os anseios de sua comunidade e construir seu currículo e seu projeto.
Isso não é tarefa para um dia, um mês, ou um ano. Demanda tempo. Tempo e urgência e rigor e compromisso e seriedade.