A Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo (SMS-SP), através da Portaria 986/14 resolveu regulamentar o uso do medicamento denominado metilfenidato na rede pública. O fármaco é um estimulante do sistema nervoso central. De acordo com a portaria “o tratamento medicamentoso deve ser considerado somente depois do levantamento detalhado da história da criança ou jovem e avaliação por equipe multidisciplinar em Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) Infantil ou serviços com vínculo com o SUS, combinado com intervenções terapêuticas de natureza psicossocial e de educação”. Ou seja, é necessária uma avaliação com uma série de profissionais para a indicação da droga.
O produto, comercializado (e nacionalmente conhecido) com a marca Ritalina, é praticamente a única alternativa farmacológica utilizada no tratamento de crianças diagnosticadas com Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e o Brasil é o segundo maior consumidor mundial desse tipo de anfetamina, somente superado pelos EUA (por acaso o maior divulgador da droga).
Pais e comunidade médica, logicamente se manifestaram contra a ação da SMS-SP com os mais variados argumentos.
Ouso concordar com a polêmica medida. Devido à indicação indiscriminada dessa droga, passamos por uma medicalização dos problemas de aprendizagem. Não vou entrar no mérito da questão do ponto de vista médico, essa não é a minha seara. Sobre isso posso apenas falar da experiência que tenho (como mãe) e tive (como diretora de uma creche por dez anos).A maioria dos médicos, seja da rede pública ou particular, prescreve o uso de antibióticos indiscriminadamente. Com a ritalina acontece a mesma coisa. Seu uso tornou-se tão comum em crianças e adolescentes que houve períodos em que o produto ficou em falta na rede pública e nas drogarias comerciais: não davam conta de fabricar, tal a demanda pela mercadoria.
Trata-se o sintoma em detrimento das verdadeiras causas do problema. Isso me lembra a obra “Admirável mundo novo”, deAldous Huxley, que descreve que adúvida e insegurança dos cidadãos era dissipada com o consumo da droga sem efeitos colaterais aparentes chamadasoma – a droga da felicidade.
A pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora titular da Pediatria da Unicamp, é uma das autoridades médicas, dentre as muitas,que critica ouso indiscriminado da droga. Ela cita que a França tem uma resistência muito grande à medicalização de crianças, devido principalmente,à formação dos médicos e aos valores sociais. E salienta a necessidade de atendimentomultidisciplinar envolvendo a família, a escola e a sociedade. Em entrevista publicada no portal da Unicamp, ao ser perguntada sobre quem está sendo medicado ela responde: “São as crianças questionadoras (que não se submetem facilmente às regras) e aquelas que sonham, têm fantasias, utopias e que ‘viajam’. Com isso, o que está se abortando? São os questionamentos e as utopias. Só vivemos hoje num mundo diferente de 1.000 anos atrás porque muita gente questionou, sonhou e lutou por um mundo diferente e pelas utopias...”
Qualquer semelhança da ritalina – “droga da obediência” – com a “soma”do Admirável Mundo Novo não é mera casualidade. Isso me reporta a um episódio da animação “Os Simpsons”, intitulado Bart Simpson - A Case Study in ADHD que pode ser acessado pelo Youtube no link http://www.youtube.com/watch?v=6SMdwNa4K4U ; creio que muitos pais, médicos e educadores deveriam assisti-lo. Seria cômico, não fosse trágico.
A Globo News veiculou excelente e esclarecedoramatéria sobre o assunto –também está no youtube e pode ser acessado pelo link:http://www.youtube.com/watch?v=MTFOb2bLjLA.Entre os especialistas apresentado suas críticas há uma entrevista com a Prof.ª Dr.ª Maria Aparecida A. Moysésem ela fala da necessidade de se escutar e enxergar as crianças.Diz ainda que déficit de atenção e hiperatividade não podem ser caracterizados como doença e, se for convencida que essa doença existe, porque é controvertida, não daria ritalina para um filho seu. A repórter pergunta então o que ela daria. A resposta, brilhante, com a entrevistada dando um suspiro com uma baita cara de “sapeca”: “Talvez Rita Lee!”.