
Muita gente pode até duvidar, achar que estou exagerando, mas cada vez mais me convenço que a minha geração, aquela do pessoal que já rompeu a barreira dos cinqüenta, sessenta ou tantos "entas”, foi o maior saco de pancada da história. O que o mundo mudou nos últimos cinqüenta anos, foi um absurdo.
Então quando afirmo que nossos filhos e essa moçadinha de hoje em dia, choram de barriga cheia e vivem na mordomia, pode apostar, tenho lá minhas razões e elas não são poucas. Por outro lado, é bom que fique claro que isso não é saudosismo, nem é uma crítica ranzinza ao progresso, aos avanços tecnológicos, nem aos privilégios que hoje as pessoas desfrutam, graças ao enorme conforto que temos nos dias atuais. Afinal, desde que o mundo é mundo ele sempre andou para a frente, sempre melhorou. Sempre foi assim e assim sempre será.
Há aqueles que dizem que bons eram os velhos tempos. Depende do foco, em algumas coisas, o mundo há quarenta, cinqüenta anos atrás, era maravilhoso. Ninguém comia alimentos contaminados por agrotóxicos, nem era viciado em fast-food. Não havia a violência que há nos dias atuais e a qualidade do ensino era muito boa. Os amigos eram de carne e osso e não personagens virtuais das tais redes sociais. Mas, comparado ao mundo moderno, havia muita coisa que melhorou muito, as comunicações por exemplo. Até parece que estamos além do arco-íris do Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.
Calma, que eu explico. Digo isso, para que os meninos e meninas de hoje, valorizem um pouco mais todos os incontáveis benefícios e ferramentas que têm ao seu alcance e disposição ...e façam bom uso delas. Por outro lado, isso também serve para que eles tenham uma idéia aproximada, do enorme grau de dificuldade, limitações e privações que enfrentamos, e ainda assim, tiramos de letra todas as tarefas e desafios do nosso tempo, tanto na nossa infância, quanto na época da nossa juventude, lá pelos anos cinqüenta, sessenta e até aí pela metade dos anos setenta.
Prá começo de conversa naqueles tempos jurássicos, ainda não havia sido inventada a internet, Google, Orkut, Facebook, celular, iphone, iphod, notebook, MSN,DVD, CD, MP5, câmera digital, rádio FM, TV à cabo, de plasma e digital. Lembro e já disse mais de uma vez, que só lá por volta de 68, surgiu por aqui a TV em preto e branco. Dos quatro canais existentes no país, aqui só pegava a extinta Rede Tupi. E sintonizar a TV naqueles tempos, era um desafio e tanto. Isso só acontecia depois de muito quebra-cabeça, subindo no telhado prá virar a antena prá lá e prá cá, colocando até chumaços de Bombril na ponta da antenas internas.
Quando a então poderosa Rede Tupi entrava no ar, era só chuvisco na tela e chiadeira no som. Para piorar as coisas, a programação começava por volta de meio dia e ia até por volta de uma hora da manhã. Depois desse horário ficava um desenho estranho e estático na tela, nos dando boa noite, até a manhã do dia seguinte. Hoje o pessoal assiste vários canais na TV aberta, dezenas deles nas redes fechadas, fora os canais da internet.
Essas consultas que os estudantes fazem hoje no doutor Google, para trabalhos de escola e faculdade, no nosso tempo, nem pensar. A gente tinha que ralar, correr atrás de amigos que tinham livros, coleção Barsa ou se socorrer da biblioteca municipal, até porque raras eram as escolas que tinham uma biblioteca. Ah, ia esquecendo: também não existia controle remoto e nem telefone sem fio. Meu camarada, a vida era dura.
Por falar em telefones, os aparelhos de antigamente eram uns monstrengos feios, negros e pesados, com exceção daqueles dos quartos das madames de Hollywood, que eram verdadeiras jóias, delicados, cheios de detalhes brancos e dourados. Aliás, nunca vi um deles ao vivo, só nos filmes.
Um dos programas favoritos da juventude era pedir música nas duas únicas emissoras de rádio da cidade. Nesse tempo só havia rádio AM, as FMs ainda não haviam sido inventadas. Então, para fazer uma ligação para um programa musical da Rádio Cultura, de Moacir Ribeiro, ou a Rádio Educadora Rural, de Leodegário Fernandes, era uma operação de guerra, um teste de paciência. As vezes a gente ficava um tempão tentando falar, com a ajuda da telefonista que completava a ligação, só para pedir uma música do nosso cantor ou cantora preferida. E aí quando não dava ocupado o tempo todo, a linha caía. Tempos da Jovem Guarda! Uma brasa, mora!
Era preciso tirar o telefone do gancho, esperar a telefonista se anunciar, dizer a ela o número desejado e esperar ela completar a ligação. Se não me falha a memória, o número da Rádio Cultura, era 123. Quando a gente tinha que fazer uma ligação interurbana, então, era o fim do mundo. Quando você pedia uma ligação para Rio Preto, por exemplo, primeiro informava o nome da cidade, depois o número desejado, esperava um pouco, com os dedos cruzados, fazendo figa, até a telefonista informar que a ligação seria completada em uma, duas ou três horas.
Acredite se puder; a gente colocava o telefone de volta no gancho e ia cuidar da vida, voltando depois, no prazo mais ou menos estipulado. E ficava lá, de molho, tomando chá de cadeira, olhando pro tempo, esperando o telefone tocar de volta. Quando tocava, a telefonista completava a ligação, íamos para uma cabine e falava. Mas para ter sucesso nessas ligações era preciso contar com o fator sorte, algumas vezes seqüenciado. Era preciso dar sorte para a linha não cair, depois para não cruzar a linha e por último, acredite, dar sorte de encontrar a pessoa procurada. Ah, os telefones antigos, como a gente precisava gritar para conseguir ser ouvido!
Alguns anos depois a vida melhorou muito. Surgiram os telefones automáticos, que faziam as ligações sozinhos. Esses aparelhos tinham o dial, um disco rotatório, com os números escritos dentro de buracos circulares, onde a gente enfiava os dedos e girava repetidas vezes. Quando a linha dava sinal de ocupado, era preciso fazer tudo de novo, porque não havia o “redial” de hoje em dia, que faz a ligação novamente de forma automática. Quem nunca um dia, tomou coragem e discou para o número da casa daquela mocinha especial, para logo em seguida, timidamente mudar de idéia, ou desligar, temendo que o pai ou a mãe dela atendessem?! Com certeza, devido o tal disco..., foi daí que surgiu a expressão discar, como sinônimo de telefonar. As meninas até coravam, quando diziam meio que tímidas e afobadas, disca pra mim!
Pior que tudo isso, era a onda dos trotes inocentes. Afinal, o telefone era uma grande novidade. Crianças e até adultos, achavam graça e adoravam passar trotes bobinhos, do tipo, “você pode esperar um minutinho?”. Depois de sessenta segundos de silêncio, o trotista dizia, muito obrigado, e desligava sempre com uma risadinha sacana. Lembro que eu trabalhava numa loja de tecidos, e um belo dia uma moça ligou perguntando se a gente tinha tecido verde. Claro que eu disse que sim. E ela, rindo disse “ tome cuidado senão pode madurar!”. Ô vontade de mandar a criatura caçar toco prá se coçar!
Até pouco tempo, telefone no Brasil era um problema sério. Custava muito caro, as linhas eram vendidas e por conta disso, não era todo mundo que tinha um aparelho em casa. Como também não haviam orelhões, muita gente tinha que se deslocar até o posto telefônico da cidade para fazer uma ligação, ou pedir emprestado o telefone da casa de um parente, do vizinho, da padaria, da loja, etc. Naqueles tempos, nada era fácil.
A mesma coisa acontecia com os televisores, que eram raros e muito caros. Não era qualquer um que podia comprar aquela maravilha, aliás, eram poucos os vizinhos do nosso quarteirão que tinham essa novidade. Eram os tempos da famosa Colorado RQ, lançada para a Copa de 70, com caixa de madeira e quatro pernas de pau estilizadas. Sabia que RQ significava Reserva de Qualidade? E o que isso queria dizer, não sei até hoje. Eram dias sossegados, era o tempo que todo mundo era televizinho.
Futebol da primeira divisão, a famosa Divisão Especial, a gente ouvia o poeta da bola, o saudoso Fiori Giglioti, na Rádio Bandeirantes, narrando os grandes clássicos do futebol paulista, e quase sempre quando ele dizia a famosa frase,“agüenta coração!”, a danada da onda do rádio sumia, ficava só a chiadeira. Torcedor fanático como alguns que conheço, suavam frio e sofriam que era uma beleza. Naqueles tempos, quase todo mundo tinha um radinho de pilha transistor, com uma capa de couro cheia de furinhos e o emblema da marca, quase sempre em alto relevo de latão dourado. Era chique ter um Mitsubishi de três faixas de ondas e antena retrátil.
Depois de alguns meses de trabalho, juntei umas economias, criei coragem e comprei um radinho Mitsubishi. Pena que não durou muito, porque alguns dias depois da “estreia’, ele acabou sendo quebrado numa briga de torcedores da nossa gloriosa ABE e do nosso então arquirrival da Terceira Divisão, o Clube Atlético Jalesense, num jogo que prá variar, acabou em pancadaria lá em Jales. Alguém o arrancou de minhas mãos, arremessou contra um “inimigo”, errou o alvo e acertou o muro do estádio. Vi meu radinho Mitsubishi “novinho em folha” se espatifando contra o muro, voando peças e pedaços para todos os lados, sem nada poder fazer. Ninguém conseguiu consertar o estrago e ele nunca mais funcionou. Semana que vem tem mais. Até lá.