Sete dias, duas perdas. Milos Forman e Vitorio Taviani.
Há algo em comum? Sim. Ambos olharam e compreenderam como poucos os excluídos, os outsiders.
Tenho por ambos uma singela nostalgia. Ambos me remetem a minha juventude passada nos cineclubes de São Paulo, às finadas e belas salas de cinema.
Assisti a muitas retrospectivas de ambos.
Recordo-me, vi filmes de Milos Forman ainda um cidadão da Checoslováquia. Belos filmes, os quais, traziam consigo essa marca do cineasta: olhar os quase invisíveis.
Com a invasão soviética em Praga, mudou-se para New York, tornando-se professor de cinema na Columbia University.
Logo começou a dirigir filmes.
Outra marca sua, foi a preocupação de se manter em conexão com o grande público. Seus filmes traziam mensagens e importantes reflexões, todavia, sabia conciliá-las com grandes bilheterias. A prefeita dialética entre obra e público; quantidade e qualidade.
Gerou clássicos como os oscarizados Um Estranho no ninho e Amadeus, também realizou o aplaudido Hair, O Povo contra Larry Flynt, esse último Urso de Ouro no Festival de Berlin.
Minha afirmação acerca de ambos, nota-se em Forman, na medida em que nessas películas, mostra e vê os excluídos: baseado na obra do outsider Ken Kesey, o filme aborda um manicômio, no qual, o presidiário protagonizado por Jack Nicholson, vai, para fugir da cadeia. Apresenta com tintas dóceis e singelas, as tenebrosas cores do lugar. O malandro Jack humanizando os internos. É um grito contra a opressão nessas instituições, alardeado pelo filósofo Michel Foucault. Arrebatador.
Amadeus evoca a vida do grande Wolfgang Amadeus Mozart. Livre criação, a meu ver, o personagem apresentado pelo ator Tom Hulce nos dá a falsa ideia de que o genial Mozart fosse um imbecíl. Além disso, apresenta de maneira maniqueísta a relação entre o gênio austríaco e o maestro italiano Antonio Salieri. Não houve.
Todavia, o filme é belo. Além da exuberante intepretação de F. Abraham Murray – lhe valeu um Oscar de melhor ator -, a película reconstitui à perfeição à época de Mozart – o Século das Luzes - todos os possíveis pecados do filme são absolvidos pela música.
Em “O Povo contra Larry Flynt” outro excluído: o dono da revista Hustler. Publicação pornográfica, porém, ia muito além das gostosas nuas da Playboy. Por meio dela, Flynt achincalhava a hipocrisia e canalhice reinantes no sonho americano. A obra apresenta todas as desditas do editor: o atentado que lhe custou as pernas, sentenças e mais sentenças nos tribunais. Principalmente, trouxe definitivamente à luz o ator Woody Harrelson, perfeito e Edward Norton e Courtney Love, perfeita. Grande filme.
Hair, adaptado do musical da Broadway, apresenta os jovens hippies sonhando com a “Era de Aquarius”. Sensível captura daquele momento, como músicas inesquecíveis.
Nas películas citadas, o olhar incisivo do cineasta sobre àqueles que não são vistos ou são equivocadamente olhados: o falso louco e humanizador, os hippies, o suposto libertino, pornográfico que joga à cara de todos as hipocrisias e idiossincrasias de uma sociedade podre, o gênio visto como demente e os utópicos que lutam e sonham por um mundo melhor.
E Vitorio?
Sem o irmão, Paolo sente-se perdido. O mesmo que tirar o leite do café, o pão da manteiga, o sexo do tesão, a água da sede. É esquisito e o fim, talvez.
Ambos afirmavam que não se sabia, quem fazia o roteiro, quem produzia, quem dirigia. Um começava e o outro terminava. No entanto, o início, o meio e o fim, eram criações de ambos.
O primeiro grande sucesso “Pai, Patrão” de 1977, lhes rendeu a Palm D’or de Cannes. Arrebatador, o filme dá a esquerda uma nova forma de ver os problemas: ao invés do abstrato, parte de ideias concretas. Tal qual o velho Marx ensina.
“A Noite de São Lourenço” de 1982, dá a ambos mais uma Palma de Ouro em Cannes. A película aborda o massacre dos nazistas, ocorrido na Toscana, bem próximo ao final da segunda guerra mundial.
A crise do pensamento de esquerda é refletida em “Kaos” de 1984, adaptado da obra de Pirandello e “César Deve Morrer” de 2012, ganhador do Urso de Ouro no Festival de Berlin.
Todavia, sua obra que mais me toca é “Bom Dia, Babilônia” de 1987. Uma grande homenagem ao cinema, personificada em D.W. Gripphit, no momento em que produzia e rodava seu maior filme: “Intolerância”.
“Entre a modéstia e a tradição europeia, de um lado, e a opulência e a vitalidade americana, de outro, Paolo e Vittorio Taviani ergueram um significativo monumento à arte que praticaram.
Arte essa que praticaram com dignidade em meio às turbulências da política italiana, da esquerda, do cinema italiano e do cinema em geral. Menos angustiados e inconstantes que Bellocchio, menos populares que Scola, menos sofisticados que Bertolucci, estabeleceram-se como talvez a melhor representação da solidez de uma tradição”. Sintetiza o crítico de cinema Inácio Araújo na Folha de São Paulo em 15/04/2018.
Paolo continuará sem Vitório? Não creio.
E os excluídos de sua obra?
Pois é, são todos os vitimados pela sede voraz do lucro pelo lucro; são todos os que sofrem pela ganância de alguns poucos em prejuízo da maioria; são todos aqueles que “herdam” as mazelas de um mundo manipulado para atender benefícios de poucos que se consideram privilegiados, em detrimento da humanidade.
Em suma: os excluídos dos irmãos Taviani somos nós. Que talvez necessitemos da voz de um falso louco humanizador, de libertino que nos jogue à cara nossas idiossincrasias e mesquinharias, nossos falsos pudores e moralismos baratos, de um gênio que nos permita ouvir uma bela sinfonia, composta com outras letras e músicas, diferentes da ópera bufa que se constitui essa ridícula existência.