Espero que esse mês de abril acabe logo. A razão: a cada dia noticia-se a morte de alguém – importante – ligado ao cinema.
Semana passada escrevi acerca do falecimento de Milos Forman e Vitorio Taviani, bem como, relembrei o centenário de nascimento de André Bazin, também falecido.
Sábado, outra perda: Nelson Pereira dos Santos.
Tinha oitenta e nove anos.
Paulistano, nascido no bairro do Brás, herdou do pai – um alfaiate – a paixão pelo cinema. Frequentava-os com o pai. Aluno secundarista, passou a frequentar cineclubes e teatro amador.
Em 1947 inicia a atividade profissional de revisor no “Diário da Noite” e ingressa no curso de direito da Faculdade do Largo São Francisco.
Dois anos depois, viaja a Paris; frequenta a cinemateca de Henri Langlois. Seu desejo de tornar-se cineasta escancara-se.
No retorno ao Brasil, filma uma média metragem: Juventude, dedicado a um encontro da juventude do partidão, cujo negativo desapareceu.
Entre 1951 e 52, trabalhou como assistente de direção de Rodolfo Nanni, Ruy Santos e do grande Alex Viany, de foi assistente em “Agulha no Palheiro” (1952).
Nesse ano, muda-se para o Rio de Janeiro.
Essa mudança de cidade trouxe consigo a proximidade com a efervescência do cinema brasileiro e a reflexão de que o cinema deveria refletir e mostrar as histórias, as lutas e as aspirações do povo brasileiro. Inegavelmente, uma influência do neorrealismo italiano. Além disso, uma proposição completamente diferente daquilo que realizava a Vera Cruz em São Paulo.
Filmou, dirigiu “Rio 40 graus”. Obra totalmente influenciado pelo neorrealismo italiano – sobretudo Roberto Rosselini -, construído em cinco histórias, as quais, mostravam ricos, pobres, o antagonismo socioeconômico, isto é, um Brasil diferente daquele mostrado na indústria do cinema.
O filme foi censurado e liberado somente após a posse de Juscelino Kubitschek.
Em seguida, “Rio Zona Norte”, cujo enredo aborda a luta de um compositor (Grande Otelo) para conseguir êxito profissional. Sem sucesso.
Em 1961, filmou “Mandacaru Vermelho” e adaptou a peça de Nelson Rodrigues “Boca de Ouro” com Jece Valadão.
Em 1964, finalmente, filmou “Vidas Secas”. Uma de suas grandes realizações.
Contou com um jovem fotógrafo cearense – Luis Carlos Barreto -, por indicação de Glauber Rocha.
Seu filme concorreu a Palma de Ouro em Cannes, juntamente com “Deus e o Diabo na Terra do Sol” de Glauber Rocha.
O golpe militar levou-o a certo isolamento.
Ainda assim, em 1969, filmou “Fome de Amor”, obra com a qual, reflete os movimentos de esquerda no Brasil.
“Azyllo Muito Louco” tratava mais do desespero de Nelson do que da obra de Machado de Assis.
“Como era Gostoso meu Francês” remonta a antropofagia de Oswald de Andrade.
“Tenda dos Milgres” (1976) E “Amuleto de Ogum” (1979) abordam as religiões africanas. Esse último, inspirado na obra de Jorge Amado.
Em 1980 filma “Estrada da Vida”, acerca da vida dos cantores sertanejos Milionário e José Rico. Grande êxito comercial.
Cinco anos depois, realiza sua obra-prima: “Memórias do Cárcere”. Também de autoria de Graciliano Ramos, o filme foi e grande sucesso de público.
Comovente, recordo-me da soberba intepretação de Carlos Vereza, protagonizando o próprio Graciliano e Glória Pires vivendo sua esposa: Dona Heloísa. Também me lembro da “premier” do filme: ao lado da protagonista, estava a própria viúva do escritor. Foi um momento antológico.
1993, “Jubiabá”, no momento de crise do cinema brasileiro. Mal recebido. Belo filme, também inspirado em Jorge Amado.
Dois anos depois, “A Terceira Margem do Rio”, inspirado em Guimarães Rosa, friamente recebido.
1995, também, “Cinema de Lágrimas”, celebrando o centenário do cinema, também fracassou em termos de público.
Então, dedicou-se aos documentários: vieram à luz, “Castro Alves” de 1998, “Sergio Buarque de Holanda” de 2003 e Tom Jobim de 2012-2013.
Em 2006 ingressou na Academia Brasileira de Letras.
Herdou a cadeira de Humberto Mauro, em face da produção de roteiros.
Lecionou cinema da Universidade Nacional de Brasília.
A marca de seu cinema é a simplicidade, no sentido de preocupar-se me mostrar e refletir as coisas, sem metáforas e elucubrações hiperbólicas.
Simples, todavia, muito longe de ser simplista.
Uma marca marcada pela dignidade de preocupação com o mundo, com o Brasil, com o outro.
Convenhamos, não é pouco.