Livia Caldeira

Edvaldo Rodrigues dos Santos enquanto trabalha pegando reciclagem
Em entrevista ao "O Extra.net", Edivaldo Rodrigues dos Santos conta sobre o orgulho que tem em realizar um serviço de grande utilidade pública e contribuir com o meio ambiente da cidade
Na próxima terça-feira, 1º de maio, será comemorado o Dia do Trabalhador. A data pode ser uma boa oportunidade para refletirmos sobre a importância da figura do trabalhador e o seu relevante papel na organização da nossa sociedade. Aproveitando o ensejo da data, a Reportagem deste "O Extra.net" traz uma entrevista realizada com Edivaldo Rodrigues dos Santos, 65 anos, catador de material reciclável no município. Muitos fernandopolenses, provavelmente, já se depararam com "seu Edivaldo" pelas ruas da cidade. Difícil não notá-lo: chama atenção nas pessoas a sua idade, a falta de um dos braços (decorrente de um acidente de trabalho) e o sorriso e bom-humor que ele carrega consigo. Nascido no estado baiano, ele precisou, aos 7 anos de idade, trocar os cadernos pelas ferramentas de trabalho. "Comecei a trabalhar aos 7 anos de idade, com machado, inchada, foice... Precisava ajudar no sustento da casa. A escola que meu pai me deu foi a roça. Não tive estudo, nunca frequentei uma sala de aula... Hoje posso não saber ler ou escrever, mas a vida, os obstáculos e dificuldades que encontrei em meu caminho me ensinaram muitas coisas", relata. Orgulhoso de contribuir de forma significativa para a cadeia produtiva da reciclagem e ajudar o meio ambiente, ele conta que nunca pensou em parar de trabalhar após perder o braço. "Depois que sofri o acidente, médicos e assistentes sociais me proibiram de trabalhar. Todo mundo dizia que eu não serviria mais pra nada. Eu não acreditei em ninguém.
Confesso que até parei por alguns dias, mas não teve jeito... Eu não estava morto, apenas tinha perdido um braço. Foi aí que decidi ignorar tudo o que tinham me falado até então e começar a pegar reciclagem na rua e neste 'emprego' estou há 20 anos". Em entrevista à Reportagem, "seu Edivaldo", que realiza um serviço de grande utilidade pública, conta sobre o trauma do acidente e o os motivos que o fazem trabalhar todos os dias feliz.
O EXTRA: Quando e como aconteceu o acidente?
EDIVALDO: Foi em 1993. Eu trabalhava em uma algodoeira, tinha na época 40 anos. Faziam 4 anos que eu trabalhava naquela empresa.
O acidente foi um trauma que marcou minha vida. Parece que naquele dia eu estava sentindo que alguma coisa triste ia acontecer. Dia 26 de julho às 6 horas da manhã fui fazer meu trabalho, como todos os dias fazia, quando a máquina sozinha desarmou e deu problema. Foi nessa hora que ela caiu em cima de mim e eu com o braço direito tentei segurar. Naquele momento tive que escolher entre perder o braço ou a vida. Ali o que entrasse iria ser sugado pela máquina, mas graças a Deus não aconteceu o pior e estou aqui agora vivo e bem, podendo contar minha história pra vocês.
O EXTRA: Foi seu último emprego formal?
EDIVALDO: Foi o último emprego de verdade que eu tive. Até então, eu já tinha trabalhado nas mais diferentes funções na minha vida, desde carpinteiro a operador de máquina (último emprego de verdade que tive). Já trabalhei na Bahia, em São Paulo, aqui em cidades da região...
O EXTRA: Qual foi sua primeira reação após perder o braço?
EDIVALDO: Logo após o acidente, a assistente social, os médicos me falaram que eu não ia poder trabalhar nunca mais. Todo mundo me dizia que nem pra catar latinha eu servia mais. Eu fiquei muito aborrecido com isso. Parei por alguns dias. Mas não teve jeito, eu não estava morto, eu perdi um braço e não a vontade de viver. Foi aí que decidi ignorar tudo o que tinham me falado até então e começar a pegar reciclagem na rua e desse trabalho eu vivo até hoje. Não acreditei no que me disseram, preferi acreditar em mim mesmo. Hoje já fazem 20 anos que trabalho com isso e ninguém nunca mais disse que eu não posso fazer alguma coisa por causa da minha deficiência.
O EXTRA: O que mudou na sua vida depois do acidente?
EDIVALDO: Senti-me prejudicado pelo que aconteceu, principalmente porque nunca recebi a indenização. Depois que perdi o braço perdi até a capacidade de escrever meu nome, que antes eu consegui mais ou menos. Mas com a mão esquerda não consigo mais. Além disso, com 2 braços temos outra força, eu podia trabalhar em qualquer tipo de serviço. Agora, analfabeta e sem meus braços, não me resta muita opção de trabalho.
O EXTRA: Quais os motivos que te levaram a começar a trabalhar desde criança?
EDIVALDO: Comecei a trabalhar aos 7 anos de idade, com machado, inchada, foice... Precisava de ajudar no sustento da casa. A escola que meu pai me deu foi a roça. Não tive estudo, nunca frequentei a escola, posso não saber ler ou escrever, mas a vida, os obstáculos e dificuldades que encontrei em meu caminho me ensinaram muitas coisas.
Tenho muito orgulho da minha trajetória, sempre tive boa vontade de viver e nunca recusei trabalho. Enquanto eu tiver vida e puder andar vou continuar trabalhando. Por que não?
O EXTRA: O que representa o trabalho de reciclagem para você?
EDIVALDO: É através da reciclagem que eu pago algumas contas e consigo comprar alguma coisinha no final do mês.Também acho que é um trabalho muito bonito, a gente tira o "lixo" da rua e ajuda nessa questão do meio ambiente.
O EXTRA: Como é a sua rotina de trabalho?
EDIVALDO: Não tenho horário e local de trabalho. É o dia inteiro e na cidade inteira.
O EXTRA: Qual seu maior sonho hoje?
EDIVALDO: Não penso no amanhã, penso no hoje. Hoje estou aqui e estou bem, com saúde e força para trabalhar. Isso que importa. O único sonho que eu ainda quero realizar é voltar a ver a minha terra natal, minha querida Bahia. Estou feliz aqui e criei meus filhos em Fernandópolis, mas não esqueço da minha terrinha.
O EXTRA: Qual a importância de Deus na sua vida?
EDIVALDO: Deus é tudo na minha vida. Se fosse pela matéria, pela minha carne, acho que eu já não daria mais conta. Mas Deus nos dá força. A coisa mais importante que tenho na minha vida é Deus e minha família.
O EXTRA: Do que você mais se orgulha?
EDIVALDO: É muito bom eu ver que meus filhos me ultrapassaram e chegaram onde eu não consegui. Todos eles são estudados, sabem ler e escrever e estão no mercado de trabalho e estão bem. São queridos por todos. Esse orgulho eu tenho! Não pude ensinar a eles contas de matemática ou ajudar nas tarefas de português da escola, mas ensinei a eles valores de vida, para que se tornassem homens dignos.