Sérgio Piva

Puxador

Puxador

Sérgio Piva

Sérgio Piva

Publicada há 7 anos

Aconteceu há muitos anos, quando eu queria muito comprar uma escrivaninha para ter um lugar mais confortável onde estudar e mais espaço para organizar meus papeis.Vinha juntando dinheiro com esse objetivo havia meses. Quando percebi que o montante era razoável, saí em busca de meu objeto de desejo.


Andei pela cidade, de loja em loja, pesquisando preços e modelos, os mais simples é claro, porque aquele montante não era um monte, apenas uma soma de poucas quantidades. Pesquisa serve para economizar ou encontrar o preço acessível.

Finalmente, depois de muita andança, encontrei uma escrivaninha com boa aparência e um preço lindo, junção ideal para o momento financeiro vivido por um rapaz latino americano sem dinheiro no banco.


A loja fez a entrega conforme combinado. Já tinha reservado o espaço onde coloca-la e havia separado os objetos que iriam ser arrumados sobre ela para enfeita-la. Ficaria faltando somente uma luminária, meu próximo desejo de consumo.

Minha escrivaninha era marrom, feita de chapas finas de compensado, com desenhos que imitavam madeira sólida. A estrutura retangular com pernas em tom claro, cuja estrutura se estendia até a tampa do móvel, seguravam os revestimentos e as gavetas: três laterais sobrepostas e outra maior, com chave, ladeando a primeira daquelas três e preenchendo o espaço restante do topo da escrivaninha. Os puxadores das gavetas eram redondos, de plástico, com desenhos circulares douradospequenos, que eram manuseados com os dedos polegar, indicador e médio.


Respeitando o ciclo da vida, ou seja, formação, continuação, declínio e desintegração, depois de alguns anos, aquela escrivaninha encontrava-se no terceiro estágio. O passar do tempo, os cotovelos constantes sobre sua armação, o excesso de papéis e afins nas gavetas, fizeram com que ela começasse a sentir esse peso.


Os puxadores quebraram. Sobrou deles apenas um pequeno pedaço roliço de plástico duro com pequenas pontas que pareciam facas a furarem meus dedos. Assim, durante meses, abrir as gavetas, era uma verdadeira autoflagelação. As gavetas mais pesadas dificultavam o processo ainda mais. Faze-las vir para fora com todo aquele peso puxado por um pedacinho de plástico era um exercício de força e paciência, cujo objetivo quase nunca era alcançado.


Os dedos escorregavam, as pontas do plástico quase sempreos cortavam. Às vezes achava graça da situação, outras, a ira surgia das profundezas do meu ser. Era o décimo terceiro trabalho de Hércules.


Esses episódios se repetiram durante meses, até que, um belo dia, resolvi exterminar tal sofrimento da minha vida. Reuni todas as forças e coragem necessárias e saí em busca de puxadores novos. Na terceira loja de materiais para construção que entrei, achei-os. Lá estavam eles. Não eram de plástico,eram de metal.Bonitos, uma base fixa e outra parte móvel, também dourados, imitavam bronze e, mais, custavam uma bagatela, centavos.


Comprei, troquei os puxadores e abri as gavetas centenas de vezes. Como agora era fácil fazer aquilo. Sem esforço, fácil, fácil. Convidava os amigos, a namorada e os parentes para me verem abrir e fechar as gavetas com tanta facilidade.Era como se nunca tivessesofrido.


A felicidade e alegria custaram poucos centavos e ação diminuta. Restou-me pensar comoàs vezes é simples e custa tão pouco eliminar certos sofrimentos davida. Basta reunir força e coragem para reagir e substituir taispuxadores de nossas vidas-escrivaninhas.


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