HISTÓRIAS DO T

Quando o mundo fervilhava aqui e lá fora

Quando o mundo fervilhava aqui e lá fora

Claudinei Cabreira

Claudinei Cabreira

Publicada há 7 anos

O tempo passa, o tempo voa, e como voa. Lá se vão quase 50 anos, corria o ano de 1.969, ano que o homem pisaria na lua no dia 20 de julho; época que o mundo pedia o fim da guerra do Vietnã, e o lendário campeão de boxe Cassyus Clay era preso porque se recusara lutar naquela guerra; tempos difíceis, ano que o general Emílio Garrastazu Médici assumia a presidência da República e endurecia ainda mais o regime militar; ano do  incrível festival de Woodstock no auge da onda “hippie”; ano de glórias, quando Peter Fonda, Jack Nicolson e Dennis Hopper estrelavam o vigoroso e premiado “Sem Destino”, um dos melhores filmes da década. Bons tempos aqueles.


Nessa época eu estudava no Colégio Estadual, hojeEscola Estadual Afonso Cáfaro, ali ao lado do Estádio Municipal “Cláudio Rodante”. Um dos meus amigos de classe era o Nelson Nakamoto, que trabalhava na Gazeta da Região, o segundo jornal diário da cidade. Antes houve o Diário de Fernandópolis, de Emerson Sumariva, uma espécie de sucursal do Diário da Região, de São José do Rio Preto.


Toda semana eu mandava notinhas do nosso time de futebol, o Alvorada da Avenida Doze, para os programas esportivos das rádios Cultura AM e Educadora Rural. Então, combinei com o Nelson que levaria também uma notinha para a página de esportes da Gazeta da Região.


Dito e feito. Numa bela manhã de segunda feira apareci na redação, que ficava ali na avenida Primo Angelucci, onde hoje é o Doces Juninho, vizinha da antiga Casa do Óleo, dos irmãos Caldeira, do Dip Ateliê, do ZezãoDip e do Akira. Levei um manuscrito do nosso jogo de domingo, mostrei para o Nakamoto; ele apanhou o texto e sumiu atrás do biombo, indo para dentro da oficina. Daí a pouco apareceu o dono do jornal com o texto na mão. Era o “seo” José de Freitas, querendo saber quem havia escrito aquilo.


Temeroso, disse que havia sido eu, e preocupado, quase gaguejando, expliquei dizendo, “que qualquer coisa, eu poderia fazer um novo texto”. Sorrindo, ele disse que não era preciso e perguntou se eu gostaria de trabalhar ali, escrevendo a página de esportes. Claro que eu senti as pernas ficarem bambas e também quase perdi a fala. E não sei até hoje, porque antes de dizer sim, perguntei qual era o salário. E o saudoso “seo” Zé de Freitas, com sua simplicidade de sempre, disse: “pago 30 contos por mês”.


De novo, quase caí das pernas. Eu ganhava menos que isso para trabalhar o dia todo, dando um duro danado, atravessando a cidade de um lado para outro, entregando botijões de gás, as vezes três deles, numa bicicleta cargueira, da Loja Econômica, do “seo” Mário Martins,  que ficava ali na esquina da rua São Paulo, com a avenida Miltom Terra Verdi. Eu tinha 17 anos, mas mesmo assim, pilotar aquela cargueira cheia de botijões, pelos grandes areais e ruas de terra da cidade, era um serviço bruto, danado de pesado.


Feliz da vida com aquela inusitada proposta, perguntei: “quando eu começo?” E o “seo” Zé, “quando você pode começar?” E eu, sem pestanejar, respondi na lata; “depois do almoço, pode ser?”. Dali mesmo, rumei direto para a loja onde eu trabalhava, entreguei a bicicleta e “pedi as contas”. Naquele tempo não tinha esse negócio acerto em sindicato ou a necessidade de cumprir aviso prévio. As coisas eram resolvidas de forma bem simples entre empregado e patrão. Hoje a coisa é bem mais complicada para os dois lados.


Feito isso, fui para casa, tomei um banho, coloquei minha melhor roupa, almocei e rumei para a redação do jornal.Logo na primeira semana de trabalho, eu peguei o jeito da coisa. Escrever sobre esportes, principalmente futebol, para mim era “mamão com açúcar”. E começou sobrar tempo. Foi quando o patrão, vendo que eu ficava ocioso boa parte do dia, me apresentou uma nova proposta para aumentar meus rendimentos e aumentar o salário: vender publicidade e assinaturas. Claro que eu topei.


Passei dois dias estudando o novo trabalho a ser realizado e depois disso peguei a“pastinha” e fui para a rua visitar o comércio. A primeira propaganda que fechei era pequena, um simples tijolinho, que negocieicom Arnaldo CajuelaArré, da Refrigeração Catanduva, que ficou por décadas anunciando nas páginas da Gazeta da Região. Mas bom mesmo foi o segundo contrato, com a Eletromóveis Grecco, do “seo” Orlando Grecco, que ficavabem ao lado onde hoje funciona o restaurante Frangão, do nosso amigos Henrique Cecato.


Lembro bem que o “Seo’ Orlando me mostrou um clichê enorme (uma placa de plástico), do tamanho deum quarto de pagina e pediu o orçamento. Era um anúncio respeitável, do mesmo tamanho da propaganda da Coferauto, então, o maior anunciante do jornal, na época do lançamento da Variant. Ali mesmo fiz o cálculo “na unha” e disse que ficava 120 contos por mês. Além de autorizar o negócio, ele pediu que  fizesse o contrato por um ano. Como eu ganhava 20% de comissão, com aquela venda e o pequeno tijolinho, o meu salário dobrou. E de quebra, ainda tinha as regalias da “carteirinha de imprensa”, com entrada franqueada no cinema, trânsito livre no Estádio, na Expô e uma mesa cativa no lendário FEC, na época de ouro do The Black Falcons e The Hells. Bons e efervescentes  tempos aqueles!


Mas o contrato com a Eletromóveis Grecco eu nunca vou esquecer. Era o lançamento nacional da famosa televisão Colorado RQ (RQ significava Reserva de Qualidade, que confesso, não sei o que é até hoje), em preto e branco, com garantia até a Copa de 70, no México.  Pensando bem, naqueles tempos o mundo fervilhava, aqui e lá fora.Agora, dos tempos da gloriosae heróica Gazeta da Região, me lembro de passagens, peripécias, façanhas e  histórias que até Deus duvida. Um dia eu ainda conto algumas delas, ah se conto!. Semana que vem tem mais. Até lá



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