Claudinei Cabre

HISTÓRIAS DO TEMPO DO BOTINÃO

HISTÓRIAS DO TEMPO DO BOTINÃO

Claudinei Cabreira

Claudinei Cabreira

Publicada há 7 anos



Antigamente, quando alguém adoecia e não havia tantos recursos como hoje, ir ao médico era luxo para bem poucos, então o jeito era apelar para a sabedoria popular. Todas as “vovós’ do meu tempo tinham lá as suas “simpatias’ e remédios caseiros que resolviam qualquer problema. Espinhela caída, cobreiro, icterícia, boqueira, frieira, sapinho, bicho-do-pé, erisipela, quebranto, vento virado, peito arrotado, mau-olhado, olho-gordo, íngua (gânglios), terçol e até dor de cotovelo, se curava com uma simples receita caseira à base de ervas ou das famosas “simpatias”.


Quando as “simpatias da vovó” não davam certo, então o jeito era apelar para as benzedeiras e suas famosas rezas secretas e poderosas. Três raminhos de arruda, um galhinho de alecrim ou guiné, muita fé, e pronto; tudo se resolvia. Para todos os males que atingiam o corpo e a alma da criatura, sempre havia uma reza bem forte prá dar jeito na moléstia. É por isso que, apesar do tempo e dos avanços da medicina moderna, a tradição dos benzedores ainda persiste na zona rural ou na periferia das cidades interioranas.


Quando era bem pequeno, lembro que para curar terçol, passava-se o rabo do gato na horizontal do olho, três vezes, três dias seguidos. Mais tarde, a tática mudou e até hoje continua sendo friccionar a ponta do dedo indicador sobre a palma da mão e depois colocá-lo sobre a pálpebra do olho afetado. Acredite se puder, funciona. Para acabar com íngua, minha mãe fazia o sinal da cruz sobre o local, com um tição em brasa e o gânglio desaparecia como que num passe de mágica. Para cortar soluço, o povo amarrava um fiapo de palha de milho no dedo mindinho do pé esquerdo. Minha mãe, por exemplo, dava sustos na gente, e acredite, cortava o soluço na hora. Eu não lembro onde foi que aprendi, mas até hoje, para acabar com soluço, bebo dez goles de água seguidos, sem respirar. É tiro e queda!

E tinha mais, para cortar quebranto, bastava amarrar uma fita vermelha no braço da criança ou no pescoço do animal de estimação. Para acabar com o ronco de alguém, era só chamar São Roque três vezes. Para acabar com torcicolo, antes de levantar da cama, era preciso virar o travesseiro e dar nele, três socos bem firmes. Para encontrar um objeto que sumia, bastava dar três pulinhos e repetir três vezes o nome de São Longuinho. Pra curar icterícia em criança pequena, chá e banho de picão.


Não me pergunte como essas coisas funcionam, porque eu não sei. Mas que funcionam, isso eu não tenho a menor dúvida. Pois bem, um dia connheci um famoso benzedor, lá pelas bandas de Rubinéia. Homem simples, o “seo” Nézico como era conhecido, por muitotempo foi requisitado por fazendeiros e sitiantes de Santa Fé do Sul e região, para fazer a chamada “limpeza de pastos” ou curar “bicheiras de animais”. Se alguma cobra picasse um animal da propriedade, o povo ia buscar o “seo” Nézico. Ele fazia lá e a sua reza para São Bento. Conta o povo que sua oração era muito poderosa, sempre afastando as cobras para bem longe do lugar ou curando os animais doentes. Essas coisas não tem explicação.


E agora com a volta da Dengue e a chegada da Chikungunia, a ultima novidade no assunto, pra acabar com as dores e mal estar provocados por quem venha a contrair a doença, o melhor remédio é o chá de folhas de cravo amarelo, bem fervido. O cravo amarelo apresenta tons variados chegando ao dourado; suas folhas são compostas com cheiro inconfundível, muito utilizado para afugentar moscas em velórios, o que lhe valeu o agourento apelido de Cravo de Defunto. Não há nenhumregistro de caso de intoxicação, e recomenda-se 10 folhas compostas em um litro de água nos casos mais simples e 10 folhas em meio litro de água nos casos mais agudos. Melhores resultados são obtidos com o chá morno, tomado aos goles seguidamente, até o desaparecimento dos sintomas, o que segundo pessoas que o usaram, não tem ultrapassado 2 horas para desaparecer os sintomas e dores. Surpreendente.


Aqui mesmo em Fernandópolis, conheço algumas pessoas que utilizaram essa receita bem caseira com ótimos resultados. Como dizem que o seguro morreu de velho e prevenir é melhor que remediar, já estou providenciando o plantio de um canteiro de cravos amarelos no meu quintal. Semana que vem tem mais. Até lá.

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