
Muitos anos atrás, antes da formação do lago de Ilha Solteira, havia ótimos pontos de pesca no velho Paranazão, ali pelas bandas da antiga Rubinéia. Havia também um famoso advogado de Santa Fé do Sul, que sempre pescava numa conhecida ceva por aquelas paragens. Religiosamente, toda tarde de quarta e de sexta-feira, lá estava ele, sempre no mesmo cantinho...
O advogado sempre via um sujeito pescando do outro lado do rio, também sempre no mesmo ponto e vale lembrar que naquela época, o lendário Paranazão tinha uns seiscentos metros de largura e olhe lá. E o caboclo do lago mato-grossense, igual a ele, sempre nos mesmos dias e no mesmo lugar. Um belo dia a dupla resolveu começar conversar, e devido a distância, a prosa era aos berros...
--- Vem pescar do lado de cá, companheiro. A pescaria aqui está ótima e eu tenho uma cachacinha de engenho que é uma beleza, gritou o advogado.
--- Agradeço o convite, patrão. Não posso ir aí dessa banda, não. Eu tou condenado aí em São Paulo, respondeu o sujeito da margem matogrossense.
--- Ih rapaz, fica sossegado! Sou advogado e se der algum “pepino”, eu te defendo de graça!
Depois de muita insistência, o camarada pegou um barquinho à remo e veio pescar na margem paulista. Horas depois acabou a famosa cachaça e os dois, aí já grandes amigos, resolveram continuar a conversa bebericando nos botecos da antiga Rubinéia.
Lá pelas nove da noite, três coqueirinhos prá lá de Bagdá, os dois começaram falar mais do que deviam e o advogado, empolgado, prá lá de animado, discursava em defesa de seu protegido prá curiosa plateia do barzinho. Nisso chega a polícia, reconhece o foragido,e “teje preso!”
No dia seguinte, bem cedinho, o advogado foi visitar o condenado na cadeia.
--- Fica calmo, meu rapaz, tudo vai dar certo. Vou impetrar um “habeas corpus” e começar preparar sua defesa...
--- Num faiz isso não, seo doutô. Mió é dexá queto. Se mexê, a coisa vai fedê!..