HISTÓRIAS DO T

E o feitiço virou contra o feiticeiro

E o feitiço virou contra o feiticeiro

Claudinei Cabreira

Claudinei Cabreira

Publicada há 7 anos



Dia desses, recebi via internet, um vídeo onde era mostrada a efervescente e jovem Fernandópolis no ano de 1.959. Apesar da precariedade da qualidade do filme em preto e branco, sem dúvida alguma, essa película é um documento raro e histórico.


Naquela época, o prefeito era o médico Adhemar Monteiro Pacheco, e o filme mostra flagrantes da economia local e do animado e exuberante desfile, marcando o 20º aniversário de fundação da cidade. Mas isso é assunto para uma outra ocasião. Quem quiser ver esse filme de quase sete minutos de duração, basta acessar o Youtube e digitar Fernandópolis: ano 1.959. Vale a pena ver e matar saudades. Aquela sim, era a Fernandópolis dos tempos do Botinão da Casa Douglas.


Vendo o filme, quase no final, na ultima tomada do palanque oficial apinhado de autoridades, aparece de suspensórios o nosso saudoso e lendário Nino Sem Braços, que acabei descobrindo através da ajuda dos amigos Moacyr Pontes, Nivaldo Thomaz de Souza e Gilberto Cristante, que ele se chamavaAntonio Luiz dos Santos e que já foi alvo de uma homenagem nesta coluna.


E por falar no Nino Sem Braços, no Moacyr Pontes, Nivaldo Thomaz de Souza e no Gilberto Cristante, será que você ainda de lembra da Escola Técnica de Comércio, que era comandada pelos irmãos-professores Érico e Fernando Barbosa Lima? Nesse filme sobre Fernandópolis, por exemplo, aparece a famosa fanfarra da escola, uma das melhores da cidade, que inclusive era mista, formada por rapazes e moças, uma coisa rara naqueles tempos.


Conta o Gilberto, que no ano de 1961, cursava o primeiro ano de Técnico de Contabilidade, e o Nino era seu colega de classe, seu vizinho de carteira. Como ele não tinha os braços, escrevia com uma caneta presa entre os dedos do pé direito, utilizando uma carteira especialmente adaptada para ele. E o Nino, diga-se de passagem, tinha uma caligrafia de fazer inveja a qualquer professor.


Quem já viveu mais de sessenta janeiros, sabe que naquele tempo o ensino era uma coisa levada à sério. E na Escola Técnica de Comércio, o ritmo era um pouco mais puxado que no Instituto de Educação e nas outras escolas, aliás, vale lembrar que foi dali que saíram os melhores e mais famosos contadores da cidade.


Alí se formaram contadores, os nossos amigos Warner Casare, Moacir Pontes, Nivaldo Thomaz de Souza, AscoloAntonio Martin (Pelmex Estofados), José Pontes Jr,Mário Rodrigues, Francisco Zantedeschi, Titose Uehara, JurandyPessuto, o Jura, Gilberto Cristante, Maurilio Brassalotti, José Floriano Bernardes, o Perú, do antigo Banco Mercantil, Toninho Angelucci, que era o Mestre da Fanfarra  e dezenas e dezenas de outros ilustres fernandopolenses. E havia também as mulheres. Ainda vamos voltar ao assunto.


Até a metade dos anos setenta, em dias como hoje, quando comemoramos a aniversário da cidade ou nos dias 7 de Setembro, havia os grandes desfiles comemorativos. Todas as escolas participavam e faziam bonito. Mas bom mesmo era a disputa das fanfarras e a fanfarra da Escola de Comércio, liderada pelo saudoso mestre Toninho Angelucci (foto),era sempre a mais “pesada” e quando passava, o barulho dos grandes surdos, o repique das caixinhas e o som dos metais, fazia o chão tremer e arrancava aplausos da plateia. Bons tempos aqueles.

Maurilio Brassalotti, do Escritório União, conta que o professor Érico era muito exigente com os alunos, e muitas vezes, em dias de provas, as aulas noturnas entravam pela madrugada. Se estivesse chovendo, ninguém precisava se preocupar, porque o professor Érico Barbosa Lima, tinha um jipe Candango e levava os alunos para casa nessas ocasiões. Era exigente e até duro, mas no fundo tinha o “coração mole”, como se dizia antigamente.


Certa ocasião, um dos alunos citados nesta matéria, que obviamente pediu sigilo absoluto sobre seu nome, conta que um amigo não havia estudado o suficiente para a difícil prova de balanço contábil, e desesperado, pediu à ele um tipo de cola para não levar um zero na prova. E ele ajudou, passando na surdina, num descuido do professor, um bilhetinho onde ensinava mais ou menos o seguinte: “A firma x vendeu y para a firma z, daí se conclui-se, que x+y=z”. No desespero, já no final da prova, o rapaz copiou tudo exatamente igual ao que lhe foi passado no tal bilhete. No dia seguinte, após a correção das provas, o professor Érico queria porquê queria, saber quem foi o gênio, o artista que lhe passou aquela cola. O camarada acabou levando um zero do tamanho da folha de papel almaço, mas não abriu o bico.


Definitivamente vou ter que levar algumas histórias para o túmulo. Uma delas aconteceu com um grupo de alunos daquela escola, que numa virada de ano resolveu visitar o professor Érico. Queriam fazer uma pegadinha com ele. Chegaram à residência do mestre carregando uma garrafa de champanhe e algumas taças já cheias e uma delas “batizada” com cuspe. Assim que o professor abriu a porta, foi efusivamente cumprimentado por todos e em seguida um dos alunos lhe ofereceu a tal taça com o champanhe batizado. Acontece que o professor Érico era, como digamos, uma velha raposa felpuda. Agradeceu a gentileza darapaziada, apanhou sua taça, elogiou muito um dos rapazes e lhe estendeu a mão sugerindo-lhe a troca de taças. E aí, diante de tamanho gesto de deferência, não teve jeito. O tiro saiu pela culatra, o feitiço virou contra o feiticeiro. O nome dos “arteiros”? Não conto nem sob tortura!


A Escola do Comércio funcionava na esquina da rua Amapá com a avenida Expedicionários, onde hoje é o prédio da Wells Ford. Por volta de 1965, o antigo prédio da escola foi demolido para a construção da agência Chevrolet, a Sarita, de Otávio Adami. Vi a demolição da escola, e como na época, meu saudoso pai havia acabado de construir nossa casa, eu e mais três de meus irmãos aproveitamos e levamos muitos tijolos do prédio, para ladrilhar o quintal da nossa casa. No meio daquela montanha de entulho, encontramos muitos cadernos, livros e pedaços de giz. Uma pena, uma lástima, a cidade ter perdido dessa forma, tamanho patrimônio cultural e histórico. Semana que vem tem mais. Até lá.

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