Livia Caldeira

Marcos Antonio Bonimcontro é referência mundial como construtor de balões
No último final de semana balões de todas as cores e formatos pintaram o céu de Fernandópolis. Moradores de diversas zonas do município puderam ver e acompanhar o Festival de Balonismo. A competição reuniu os melhores do Brasil no esporte e trouxe para a cidade Marcos Antonio Bonimcontro, considerado o melhor construtor de balões do Brasil. Além de físico, piloto e diretor de provas, ele fabrica balões dos mais diferentes formatos, como o da Galinha Pintadinha, que "roubou a cena" durante os dias do evento. Referência internacional na fabricação da aeronave, é ele quem faz grande parte dos balões que participam todos os anos do Festival de Albuquerque, evento mais tradicional do balonismo mundial. Em entrevista ao "O Extra.net", ele fala sobre a questão da segurança do balão e a sua paixão pelo "fantástico esporte que permite a contemplação de um vasto panorama de 360°, ao sabor do vento".
O EXTRA: Qual a relação entre física e balonismo?
Bonimcontro: Balão é física pura. É basicamente Arquimedes, lei do empuxo. Conhecimentos em física são essenciais para compreender de forma complexa o funcionamento de um balão.
O EXTRA: Voar de balão e praticar o esporte é seguro?
Bonimcontro: Sem dúvidas! Existem vários fatores que influenciam na segurança do voo. Não somente a construção do balão é importante, mas os materiais usados também é um fator chave. Entre nós, pilotos, costumamos brincar que "balão é a prova de idiota". A pessoa pode fazer tudo errado e, mesmo assim, ainda voará em segurança. Os materiais que utilizamos extrapolam muito o nível de coeficiente de segurança aeronáutico. Para exemplificar o que estou dizendo: quando construímos um balão, na pior das hipóteses, ele terá doze gomos, cada fita dessa resiste a 600 kg. Em baixo estarão pendurados cerca de 700g. Pode-se dizer que apenas uma dessas fitas já seria quase suficiente para segurar o peso todo. A vida útil do material também é longa e os balões modernos, da década de 50 pra cá, são trabalhados com coeficiente de segurança muito alto, o que torna a aeronave muito segura.
O EXTRA: Quais os fatores que podem causar um acidente com balão?
Bonimcontro: Quando ouvimos falar em acidentes com balões, é preciso deixar claro que não é com o balão o acidente, é com o piloto. Não existe falha mecânica, a concepção estrutural não permite. Quando ocorre um acidente, em 100% dos casos trata-se de falha humana: ou piloto voou baixo em uma zona com fios de alta tensão, ou piloto não viu o balão que estava voando em cima dele e ocasionou a colisão, como aconteceu na Capadócia. Neste caso, de 23 pessoas que estavam a bordo, morreram 3 idosos. Se o mesmo acidente tivesse acontecido com um avião, todos provavelmente teriam morrido. E reitero que, mesmo assim, é raro acontecer um acidente.
O sistema de gás propano serve pra fazer com que o balão suba. Alguns raros acidentes foram com gás, devido a falta de manutenção. Se o piloto trabalha com um equipamento fora do prazo de validade, não podemos dizer que é falha mecânica. Se houver manutenção, e o piloto for responsável, nunca teremos um acidente com balão. Não existe registro de balões que rasgaram e caíram, por exemplo.
O EXTRA: Temos balões "made in Brazil" no mundo todo?
Bonimcontro: Sim, já construi balões de forma para outros países além do Brasil. Para o Canadá, Estados Unidos... os que mais exporto são os de forma. A Galinha Pintadinha que trouxemos em Fernandópolis foi eu que fabriquei. E quem voou com ela pela primeira vez também fui eu.
O EXTRA: Há quantos anos você participa do Festival de Albuquerque?
Bonimcontro: Todos os anos vou para Albuquerque, Novo México, EUA, e participo da competição como construtor e como piloto. Vou para lá desde 99. Trata-se de um festival no qual são realizadas dois tipos de competição. Na categoria balões de forma, são cerca de 100 aeronaves participando. Já houve anos em que desses 100 balões de formas do festival, 25 tinham sido construídos por mim. O Brasil é uma importante referência na área. Já ganhei a competição duas vezes, inclusive.
O EXTRA: Temos atualmente bons pilotos brasileiros representando o país nas competições mundiais?
Bonimcontro: Os brasileiros são muito bons no esporte. Sempre ficamos entre os 20 primeiros colocados, mas o grande problema são os americanos, japoneses e alemães. Eles não são fortes. Nas provas em que o piloto tem que chegar ao alvo, por exemplo, os brasileiros são muito melhores. Mas a questão é a tecnologia.
A competição de balão já foi algo muito mais "romântico". Cheiro, faro, intuição, piloto... Hoje em dia usam programas de computador para tudo, a tecnologia faz tudo, o piloto quase não precisa fazer nada. Duvido que sem o uso da tecnologia os pilotos desses países seriam tão bons quanto nós. Nunca participei de um mundial por causa disso. Eu não vou participar de uma competição voando "no braço" igual um louco, com GPS, mapa, usando a minha experiência, enquanto os meus adversários farão uso das melhores tecnologias. Afinal, sou eu que piloto o balão ou o computador?
O EXTRA: Atualmente, você é mais construtor de balão ou piloto?
Bonimcontro: Hoje em dia estou me dedicando somente a fabricação. Mas minha grande paixão é voar, não tem coisa melhor no mundo. Espero que sejam encontrados outros talentos da nova geração para que tenhamos logo novos construtores de balão. Quero me aposentar e ter um substituto que continue representando o Brasil, assim poderei voltar a voar novamente.