Histórias do T

Quem já brincou de circo?

Quem já brincou de circo?

Claudinei Cabreira

Claudinei Cabreira

Publicada há 7 anos




Dia desses, fazendo uma caminhada casual, de repente me vi diante de um dos lugares mais emblemáticos da minha infância. Entre os anos de 1960 à 1964, morei em uma casa bem simples na antiga Avenida Dezesseis (hoje Av. Geraldo Roquete), entre as ruas Paraíba e Paraná, bem ao lado da antiga Volkart, uma das maiores máquinas de benefício de café que a cidade já teve.


Anos depois a Volkart, que era uma empresa sueca ou suíça, não me lembro bem, encerrou suas atividades e em seu lugar, no mesmo prédio,  nascia a Cacenepe, de Nelson Permigiani, que por algumas décadas foi a principal empresa do mercado cafeeiro local. Hoje naquela esquina, foi erguido um grande e vistoso conjunto de edifícios residenciais, o condomínio Vila Itália. É o progresso.


E foi passando por aquele lugar, que de repente me vi mergulhado no túnel do tempo. Lembro que naquela época as ruas eram de terra batida e nem calçadas havia diante das casas simples do bairro. A Avenida Dezesseis terminava na rua Paraná e a Paraná acabava bem diante da chácara da família Marcondes, onde haviam algumas casas sombreadas por frondosas mangueiras.


Naquela chácara morava o velho Laporte, um senhornegro de baixa estatura, já de cabelos brancos e me lembro que o povo dizia que eletinha mais de 115 anos de idade. A vizinhança falava à boca pequena que ele era filho de escravos, que era do tempo da Princesa Izabel. Nunca conversei com o velho Laporte, até porque quando ele passava pela nossa rua eu e meus amigos parávamos de jogar nosso futebol e ficávamos ali, parados,  olhando aquele homem centenário. Era sem dúvida um personagem misterioso.


E por falar em personagens curiosos e misteriosos, ao lado da Volkart, numa casa também bastante simples, morava Dona Malvina, que vivia sozinha com meia dúzia de filhos pequenos. Era uma mulher negra, forte, muito brava com seus filhos e com a molecadinha que frequentava aquele trecho da rua. Sempre muito irritada, as vezes até batia boca com vizinhos. Talvez ela fosse assim porque além de solitária e com tantos filhos pequenos para cuidar a coitada tinha vitiligo. Como naquele tempo ninguém por ali sabia o que era essa doença da pele, logo os meninos da rua começaram chamar aquela pobre mulherde “Pintada”. E isso, claro, só piorava as coisas.


Todo esse desentendimento deve ter surgido porque quando a gente jogava bola na rua, ela trancava as portas e janelas de sua casa, e lá de dentro ficava falando alto, soltando o palavrório, sempre ameaçando os meninos. Para piorar, algumas vezes, quando a nossa bola caía no seu quintal, ela pegava um grande facão e furava a bola. Com isso, a molecadinha entrava em pé de guerra. Fora as vezes que ela saía lá de dentro enfurecida, brandindo o grande facão no ar, batendo a lâmina com força numa lajota que havia diante de sua casa, fazendo soltar faíscas por todos os lados. Todo mundo morria medo dela.


Mas mudando de assunto, logo acima, na esquina da Dezesseis com a rua Paraíba, morava meu amigo Nivaldo Berton. Toda molecadinha do pedaço era amigo dele, tudo por causa de sua irmã mais nova, a Neuza, que na opinião de todo mundo era a menina mais linda do bairro. Aliás, por causa dela muitos meninos “saíram no braço”, trocaram muitos tapas e sopapos se dizendo namorado da mocinha. Só que ao que me lembre, nunca alguém da turma teve coragem de ir lá e se declarar para a pretendida. Desconfio que ela não sabe disso até hoje. Aqueles sim, eramdias divertidos, tempos inocentes.


 Mas apesar dessas diferenças, nossa turma era muito unida. Principalmente quando a gente inventava de montar um circo no quintal de casa. Todo mundo ajudava buscando palha de arroz para montar o picadeiro,outros fincavam estacas e amarravam velhos lençóis em volta imitando um circo de verdade. O ingresso para os meninos “custavam” 10 palitos de fósforos, as meninas entravam de graça. Para dar o sinal anunciando o começo do “espetáculo”, alguém acionava uma daquelas antigas campainhas de bicicleta. Quando tinha circo na casa de alguém da turma, era um acontecimento.


Muitas vezes banquei o apresentador, improvisando qualquer coisa como se fosse um microfone, estufava o peito e lascava:” Respeitável público...”  E as atrações, então? Sempre alguém se oferecia para fazer o palhaço, que parecia ser o papel mais fácil, pelo menos era o que diziam alguns que corajosamente tentavam imitar o Carequinha. Difícil mesmo era alguém se dispor a bancar o Mandrake e fazer algum tipo de mágica, porque igual o número de malabarismo com laranjas, quase nunca dava certo. Daí, a vaia era geral e impiedosa.  Fácil mesmo era bancar o domador, fazendo nosso cachorro Lulu, o Broto, ficar em pé e dançar de um lado para outro no picadeiro. O truque era bem simples. A gente pegava um pedaço de bife, e “escondido da plateia” passava o pedaço de carne no nariz do bicho e ficava andando de um lado para outro, com a mão lá em cima, fazendo o coitado nos seguir de um lado para outro, ficar em pé e realizar peripécias para conseguir o prêmio. Pode uma coisa dessas?. Semana que vem tem mais. Até lá.

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