Livia Caldeira
Zé do Gás foi um dos líderes do movimento em Fernandópolis
Cansados e insatisfeitos, os caminhoneiros que estavam acampados nas margens da rodovia Euclides da Cunha, em Fernandópolis, decidiram encerrar a greve na última quarta-feira, 30. Apesar da desmobilização, o clima entre os motoristas era de insatisfação. Para José Fernando Lemes da Silva, o "Zé do Gás", o acordo firmado com o governo federal não supre as necessidades da categoria. "Não ficamos satisfeitos com o resultado da manifestação. O governo não atendeu ao que foi solicitado", afirma. A reportagem conversou com o líder do movimento no município, que fez um balanço da greve após uma semana de paralisação.
O EXTRA: Como surgiu a ideia de começar a greve?
Zé do Gás: A ideia da greve foi de iniciativa nossa, dos próprios caminhoneiros autônomos. A principal motivação foi o último aumento do óleo diesel. Começamos a nos mobilizar através das redes sociais, grupos de whatsapp principalmente. A ideia da greve foi aderida por praticamente todos os motoristas. Cada cidade do país contava com a colaboração de um líder, mas os grupos de Whatsapp foram os grandes responsáveis pela organização desse feito histórico.
O EXTRA: Vocês estão satisfeitos com o resultado da greve?
Zé do Gás: Não ficamos satisfeitos com o resultado da greve. O governo não atendeu ao que foi solicitado. Nós esperávamos muito mais dos governantes. As nossas reivindicações não foram aprovadas e, consequentemente, não estamos satisfeitos. Nossa luta era por todos e resistimos por muito tempo, por isso esperávamos maior consideração.
O EXTRA: Quais eram as reivindicações da classe?
Zé do Gás: Redução de todos os combustíveis (Diesel, gasolina, álcool, gás), desatrelar o petróleo brasileiro do dólar, eixo erguido não pagará pedágio, fim do PIS/Cofins e Cide e redução do ICMS.
O EXTRA: Houve mesmo um acordo entre a classe e o governo?
Zé do Gás: Não. Na verdade, decidimos parar a greve porque fomos vencidos pelo cansaço. Os locais onde os caminhoneiros estavam acampados também não era adequado para ficar por muitos dias, não tinha estrutura. Resistimos até onde deu. E assim, repito, eles nos venceram pelo cansaço. Da próxima vez que decidirmos fazer uma nova greve, com certeza será melhor organizada para que a gente seja ouvido.
O EXTRA: Na sua opinião as associações, sindicatos e federações que costuraram o acordo com o governo federal representaram a categoria?
Zé do Gás: Eu acredito que não teve nenhum acordo com nenhum sindicato. Tanto que, pelo que eu saiba, nenhum sindicato se envolveu com a greve dos motoristas. Aqui em Fernandópolis mesmo, o sindicato em nenhum momento compareceu no lugar onde a gente estava para nos dar apoio. Não presenciei ninguém do sindicato daqui indo lá dar apoio aos caminhoneiros. Não recebemos nem mesmo uma palavra de incentiva ou garrafa d água da parte deles.
O EXTRA: Houve briga e opiniões divergentes entre os próprios caminhoneiros que participavam da mobilização?
Zé do Gás: Aqui em Fernandópolis, entre nós, não teve divergência nenhuma. Todos os motoristas concordaram com a manifestação. Mas isso aconteceu com nós aqui na cidade. Aconteceu de eu abordar alguns motoristas que não concordaram em participar do ato e decidiram seguir viagem. É importante ressaltar que não houve briga, agressão física ou verbal. Ocorreu tudo de forma pacífica.
O EXTRA: O que você acha do apoio (ou falte de apoio) da população?
Zé do Gás: Eu acho que a população tinha que ter aderido mais à greve. A gente não estava lutando só por um objetivo, queríamos abaixar também o preço da gasolina e isso seria bom para a população. É claro que não posso generalizar, mas muitos não foram parceiros dos motoristas. Muita gente ficou em casa, teve gente até criticando a paralisação. Acho que a gente precisava ter tido mais apoio da população, do comércio em geral e dos empresários. Alguns empresários aqui da cidade, inclusive do ramo do transporte, não demonstraram nenhum apoio a nós. Isso nos deixou muito envergonhados. Infelizmente o apoio não é algo que pode ser cobrado, ele tem que ser voluntário, não podemos obrigar ninguém a nada.
O EXTRA: Nos atos organizados em Fernandópolis e região caminhões traziam faixas com a inscrição "Intervenção Militar Já". Na sua visão, por que a pauta intervencionista acabou ganhando destaque no movimento?
Zé do Gás: Eu acredito que essas faixas pedindo a intervenção militar representam um ato de desespero. Eu não acho que os caminhoneiros realmente acreditem que a intervenção militar vai resolver nossos problemas. Eu, particularmente, não escrevi em nenhum momento no meu caminhão "Intervenção Militar Já". A população precisa é mostrar que não vai tolerar um governo que está desrespeitando o povo. O próximo governo que entrar terá que trabalhar de forma séria, se não a população, com a sua força, vai tirar do poder quem não estiver fazendo um trabalho digno e honesto.
Eu acho que a intervenção militar poderia até complicar a vida dos mais jovens. Obviamente essa é a minha opinião pessoal e não posso responder por todos os meus colegas de profissão.
O EXTRA: Está previsto algum ato na cidade ou região para os próximos dias?
Zé do Gás: Estamos nos organizando para uma próxima manifestação aqui em Fernandópolis, mas nada de concreto ainda foi definido.