Carlos Eduardo

Ninguém controla nada nessa vida

Ninguém controla nada nessa vida

Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Carlos Eduardo Maia de Oliveira - Professor e Biólogo

Publicada há 7 anos

Em uma cidade bem distante daqui, morava um homem muito orgulhoso, dono de si, rico, poderoso e com muita influência política. Todos o bajulavam, muitos o admiravam e alguns até o temiam (diziam, à boca miúda, que ele era, ao mesmo tempo, benevolente com os amigos e vingativo com os inimigos). Foi laureado com muitos títulos, conquistou lugar de destaque na sociedade daquela localidade, participava dos grandes eventos regionais e sempre era convidado para sentar-se à mesa de honra ou subir ao palco.


Gabava-se de ter conquistado inúmeros bens materiais por meio de seu suor e trabalho honesto, a despeito das controvérsias. Mas quem teria coragem de colocar isso em dúvida? Implacável,  o homem orgulhoso, e também rancoroso, não hesitava em passar por cima de quem se postasse em seu caminho. Os moradores mais antigos da cidade diziam que, antes de se tornar rico e temido, a humildade era uma marca de sua personalidade. Isso me fez lembrar uma famosa frase atribuída a Abraham Lincoln, ex-presidente dos Estados Unidos da América entre os anos de 1861 e 1865: “Quer conhecer o caráter de uma pessoa? Dê poder a ela”.


O homem orgulhoso demonstrava certa confiança que beirava a arrogância, pois tinha certeza de que tudo e todos estavam sob seu controle: sua família, seus empregados, suas propriedades, sua popularidade, os bajuladores (incontáveis), seus amigos verdadeiros (contavam-se nos dedos de uma mão) e até seus inimigos (declarados – raríssimos; ocultos - só Deus sabia), devidamente colocados em seu lugar por meio de suas mãos pesadas e poderosas. Ele se achava muito esperto, aliás, mais perspicaz do que todos ao seu redor. Ah! Também dizia ser um homem religioso e sempre agradecia a Deus pelas conquistas na vida, especialmente as de natureza material. Já ia me esquecendo desse detalhe importante.


Certo dia, de repente, o homem orgulhoso sentiu seu rosto formigar, os músculos perderem as forças, a fala ficou arrastada, o copo caiu de suas mãos e, ao tentar caminhar, caiu como uma jaca madura. No hospital veio o diagnóstico: acidente vascular cerebral (AVC) muito sério que o confinou a uma cadeira de rodas, deixou-o balbuciando as palavras e tornou-o totalmente dependente de cuidadores. Quanta ironia! O homem poderoso, que ninguém tinha coragem de desafiar, foi traído por veias que ficavam dentro de sua cabeça, tão finas quanto fios de cabelo. Curioso notar que algo tão frágil pode enfraquecer um homem tão poderoso.


Nesse caso hipotético foi um AVC que mudou a vida de uma pessoa, mas poderia ser um acidente automobilístico ou de outra natureza, uma doença crônica e debilitante, uma EQM (Experiência de Quase Morte), ou a inevitável velhice avançada que pode levar à debilidade física e mental, deixando-nos dependentes de terceiros. Enfim, poderia ser tantas situações, que fogem ao nosso controle e que podem acontecer a qualquer momento, que revelam a nossa frágil condição humana.


O sucesso, o dinheiro, a fama e o reconhecimento social costumam acender a chama da vaidade (mãe de muitos males), levando o indivíduo à ilusão do poder e a imaginar que tudo pode controlar (o interessante é que existem pessoas que nem são tão poderosas e influentes assim e também são acometidas por esse sentimento). Mas, quando o sujeito menos espera, ocorre algo inusitado que o derruba do alto de seu pedestal, revelando a sua vulnerabilidade.


Desse modo, a vida é uma prova constante de humildade, pois ninguém tem controle de nada. Engana-se quem pensa o contrário. Por isso, devemos nos despir da vaidade, prima-irmã do poder e amante do sucesso, trilhando os caminhos tortuosos e inesperados dessa existência, de mãos dadas com a humildade e conscientes de nossas potencialidades e fragilidades.



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