Não é raro encontrar quem não gosta de futebol, mas aprecia a Copa do Mundo, pois a cada quatro anos, muitos se reúnem em frente à TV para acompanhar os jogos da seleção brasileira. As pessoas são dispensadas do trabalho e as ruas ficam vazias durante os jogos do Brasil. Esse comportamento sazonal é exclusividade do nosso país? Claro que não! Os ingleses são fanáticos, os argentinos são apaixonados pelo esporte, os italianos (que não participarão desta edição) são loucos por Copa e, na Alemanha, é assunto de Estado. Enfim, o futebol é uma paixão mundial, em especial a Copa do Mundo da FIFA (Federação Internacional de Futebol).
Mas porque esse torneio desperta tanto interesse? Tenho uma opinião que descreverei por meio de uma analogia. A vida não é fácil, vencer é difícil, todos anseiam o sucesso, e a Copa representa isso para o jogador de futebol – a vitória. E quem não a deseja na vida? Porém, na Copa, como na vida, há sucessos e fracassos, histórias de superação, episódios políticos e pitorescos, justiça e injustiça.
Beckenbauer (jogador alemão) jogou a semifinal da Copa de 1970 com a clavícula quebrada. Imaginem a dor! Mas ele a suportou e foi até o fim da partida. Acredito que um cidadão alemão que acorda de madrugada para trabalhar e luta o dia inteiro para trazer o sustento para sua casa, certamente se motiva e fica orgulhoso ao ver essa cena de sacrifício e entrega de seu compatriota.
Ronaldo “Fenômeno”, um famoso jogador brasileiro, perdeu a final da Copa de 1998 na França, sentindo na pele a frustração da derrota. Como se não bastasse, logo depois, lesionou seriamente o joelho em uma partida de futebol, colocando sua carreira em risco. Mas, ele não abaixou a cabeça, enfrentou uma cirurgia, passou por um longo e doloroso tratamento, lutou, sofreu, e disputou outra Copa e, na final, tornou-se herói da conquista do Pentacampeonato da seleção brasileira. Antes de terminar a partida, Ronaldo foi substituído e chorou copiosamente no banco de reservas. Perguntado sobre o que pensou naquele momento, humildemente respondeu que o seu choro não era pela conquista do torneio em si, mas por ter lembrado tudo que passou para chegar àquele grande triunfo. Quem não se inspira ao conhecer essa história de superação?
Na Copa de 1982, o jogador da seleção italiana de futebol, Marco Tardelli, foi protagonista do que é considerada uma das comemorações mais emocionantes de todas as Copas. Após marcar um gol, que praticamente selou a conquista do torneio para o seu time, Tardelli se levantou do chão com os braços estendidos, punhos cerrados, as veias do pescoço estufadas de tanto gritar, balançando a cabeça como se não acreditasse no que acabou de fazer, chorando e, em estado de puro êxtase, correu para a lateral do campo para comemorar com seus companheiros de time. Além de emocionante, sua celebração tornou-se um símbolo de superação que ficou conhecido, na Itália, como “O Grito de Tardelli”, considerado como um ato de libertação, de desabafo, de extravasamento de quem provou o seu valor, pois a Azzura, como é conhecida a seleção italiana de futebol, foi muito criticada pela imprensa daquele país antes do torneio. Todos achavam que o time tinha poucas chances de lograr êxito. Ao marcar aquele tento, ele e seus colegas provaram ao seu país, à imprensa esportiva e ao mundo que tinham capacidade para ganhar o mais importante campeonato de futebol do mundo. Anos mais tarde, Marco Tardelli resumiu esse momento com as seguintes palavras: “Era felicidade, comoção, era como um vulcão que explode. Nesse momento, você pensa nas coisas que ocorreram em sua vida, você pensa em sua família, em seus irmãos, na Itália... É uma recordação belíssima. Espero que fique com meus filhos”. E você, caro leitor ou leitora, já deu o “Grito de Tardelli” em sua vida? Já superou uma situação bastante adversa e saiu com a alma lavada? Eu, particularmente, já tive esse prazer.
Destaca-se também que foi em uma Copa que o mundo conheceu o brasileiro mais famoso de todos os tempos – Pelé. Na Copa de 1958, na Suécia, Pelé era um garoto de 17 anos que só faltou fazer chover na final em que o Brasil conquistou sua primeira estrela na camisa. O rei do futebol foi um jogador tão completo que, além de ter sido eleito o atleta do século 20 pela prestigiada revista esportiva France Football, seu apelido – Pelé – virou sinônimo de extrema competência no mundo esportivo, de ser o melhor de todos os tempos em alguma modalidade. Todos já ouviram frases do tipo: fulano é considerado o Pelé do Voleibol ou beltrano é o Pelé do basquete, e assim por diante.
A Copa também teve seus momentos políticos. Em 1986, o genial jogador argentino Diego Armando Maradona marcou dois gols antológicos, um com a mão (ele o classificou como o gol feito com “La Mano de Dios”) e o outro é considerado o mais bonito de todas as Copas, anotados contra a seleção inglesa, no qual o craque driblou vários ingleses antes de tocar a bola para o fundo das redes. Esse jogo teve como pano de fundo um contexto político, pois, de certa forma, Maradona vingou seu país que fora humilhado pela Inglaterra, quatro anos antes, na Guerra das Malvinas. A partir daquele dia, ele virou uma espécie de “semideus” na Argentina. Outro episódio interessante ocorreu com o lendário jogador holandês Johan Cruyff que, dizem, negou-se a disputar a Copa de 1978 na Argentina para protestar contra a sangrenta repressão da ditatura militar que vigorava, na época, naquele país.
Ainda no tema Ditadura Militar e futebol, João Saldanha, ex-técnico da seleção brasileira, negou-se a escalar um jogador a pedido do presidente Médici e foi demitido às vésperas da Copa de 1970 (o Brasil vivia os anos de chumbo). Criou-se o folclore de que o destemido técnico mandou o seguinte recado ao general – presidente: “O senhor manda no seu ministério; eu mando na seleção brasileira”.
Também há momentos de tristeza e frustração: quem não se lembra ou ouviu dizer da choradeira na derrota para a seleção italiana do carrasco Paolo Rossi, em 1982? E do jogo final da Copa de 1950, disputado no Brasil, em que 200 mil pessoas ficaram mudas e perplexas no Maracanã quando o Uruguai bateu o Brasil por 2 a 1, uma tragédia futebolística nacional que ficou conhecida como Maracanazo. Este trauma só não foi pior do que o produzido pela famosa surra de 7 a 1 que tomamos da Alemanha, em 2014.
A despeito de ser apenas um esporte no qual jogadores disputam uma bola, na Copa e em alguns aspectos, o futebol imita a vida. Talvez por isso, esse torneio seja marcado por uma magia tão especial que atrai a atenção de milhões de torcedores em todo o mundo.
Nota: escrevi esse artigo antes da publicação, nessa última terça-feira, dia 12 de junho de 2018, da pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha que revelou que 53% dos brasileiros não demonstraram interesse pela Copa do Mundo de 2018. As 2.824 pessoas entrevistadas em 174 municípios brasileiros, entre os dias 7 e 8 de junho, alegaram vários motivos: crise econômica que afeta o país, corrupção na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e até mesma a famosa derrota de 7 a 1 que a nossa seleção levou da Alemanha na Copa de 2014. Realmente, até no quesito desilusão do cidadão, a Copa continuando imitando a vida.