Sérgio Piva

Fantasmas

Fantasmas

Por Sérgio Piva

Por Sérgio Piva

Publicada há 9 anos

Cada um de nós tem seus próprios fantasmas. não posso dizer que são de estimação, porque acredito que a maioria não os estima, por um simples fato: foram criados para nos assombrar. Existem nas mentes e na real imaginação da aflição que podem causar em cada um de nós, mesmo que em diferentes intensidades, duração e período de tempo. 


Quanto mais remota sua gênese, mais atemorizantes e mais difíceis deserem detectados e eliminados, senão domesticados. Desde bebês somos presenteados com fantasmas, travestidos de personagens folclóricos. A mãe, logo cedo, em suas canções de ninar, adverte “nana nenê, que a cuca vem pegar”, quando não era “Boi da cara preta, pega esse menino” ou “Bicho papão, sai de cima do telhado”. Primeiro, dormir com essa horda a caminho deve ser difícil. 


E quem é que consegue relaxar e adormecer correndo perigo? Provavelmente os bebês não durmam, mas desmaiem, depois de ficarem zonzos de tanto a mãe balançar, embalados por aquelas canções ameaçadoras. Logo estamos em outro período da infância, um pouco mais crescidos, mas não isentos dos personagens amedrontadores. Se não é o homem do saco, é o bêbado ou a polícia (no tempo que as pessoas tinham medo dela), que mesmo envoltos pela concretude física, são terrivelmente monstruosos diante da imaginação construída pela mente da criança. Quando adolescentes outros tantos espectros mentais podem surgir pelo caminho. Todas as indefinições e expectativas em relação ao futuro pessoal, somadas a inúmeras mudanças físicas e psicológicas, características da puberdade, caso não trabalhadas, especialmente pelos pais, com o intuito de acalmar a ansiedade da alma, podem se tornar monstros de estatura enorme. 


Na fase adulta, não ficamos livres dos criadores da fantasmagoria: perdas, corações partidos, decepções, rejeição, fobias, humilhações, traições e tantas outras experiências que podem trazer para dentro da mente aparições imaginárias somatizadoras do sofrimento real do homo sapiens sapiens. Talvez nem todos tenham seus fantasmas particulares. Pode ser. Mas alguns os têm guardados em um quarto escuro da mente, prontos a serem libertados ao abrir da porta pelo girar da chave de alguma experiência que não souberam lidar, e outros foram ensinados desde cedo a não terem tanto medo de fantasmas ou aprenderam que eles só existem em nossa imaginação. 


O autoconhecimento é o melhor caça-fantasmas disponível, capaz de nos fazer compreender os medos criadores dos nossos fantasmas e como eles, por sua vez, geram os medos arraigados em nosso subconsciente, nesse ciclo só possível de ser interrompido com o conhecimento de si mesmo e dos fatos causadores desses, concebidos desde o nascimento do ser. Mas advirto,os fantasmas, como a Esfinge do Egito, lançam enigma parecido: decifra-me ou assombro-te. Pela vida toda. 

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