Lá pelos meados da década de sessenta, era comum encontrar os vendedores de picolés, que vinham pelas ruas da cidade empurrando os carrinhos e soprando um apito. Aquele assobio era como uma senha, e a criançada corria para a rua gritando, parando o sorveteiro. Era uma festa!
Quantas vezes não “assaltei”, ou melhor, tomei emprestado alguns trocados que minha mãe sempre guardava suas economias debaixo da imagem de Nossa Senhora, para que pudesse comprar sorvete de palito. Sorvetes de massa ou aqueles de “casquinha”, nem sonhar. Eram muito mais caros. Então por economia, a gente comprava picolés de framboeza, cereja ou uva. Picolés de limão, nem pensar, até porque, no fundo da nossa casa havia um grande pé de limão galego, e quase todo santo dia minha mãe fazia jarras de limonada devido ao calorão... De limão e limonada, a gente vivia “entojado’ como se dizia antigamente.
Mas voltando ao carrinho do sorveteiro, quando juntava nossa turminha de amigos da rua, quem não tinha dinheiro, sempre ganhava uma “mordidinha” dos sorvetes dos outros. Ou então, a gente combinava e um comprava de groselha, outro comprava de cereja, de laranja, de tamarindo, de framboesa e aí cada um dava uma “mordidinha’ no sorvete do outro, para provar sabores diferentes. Eram tempos criativos e solidários.
Com as raras garrafas de Tubaína ou da antiga Sodinha Ferrari, era a mesma coisa. Todo mundo da turminha bebia um gole na boca da garrafa. Se alguém tivesse uma afta (para a gente, afta era boqueira), todo mundo pegava aquela coisa. E lembro que a gente curava essas aftas passando sal grosso ou pedra ume.
Levanta a mão quem é desse tempo e nunca pegou uma boqueira ou uma frieira. Não se assuste, mas lembra como o povo antigo curava aquelas frieiras bravas? Fervia urina com pedaços de fumo de corda, e com um pano umedecido, aplicava aquilo bem quente, em cima do local afetado. Era tiro e queda. E eu fico aqui pensando, como é que foi que nós sobrevivemos?
No nosso tempo, por exemplo, havia o refrigerante Grapette, sabor uva, em garrafinhas de vidro que lembram a Coca-Cola de antigamente. O slogan era “Grapette: quem bebe, sempre repete!” E repetia mesmo, até porque a gente achava a maior graça ficar com a língua e a boca roxa, de tanto corante.
Ainda sobre as guloseimas daqueles tempos, me lembro que a gente se empanturrava daqueles doces de abobora em forma de coração, de pedaços triangulares de doce Sírio, cobertos de açúcar cristal, Maria Mole, cocada, paçoquinha ou também de imensos tufos de algodão doce. Fora os torrões de açúcar, que a gente comia escondido. E ninguém morria, nem engordava, porque a gente queimava aquelas montanhas de calorias com nossas atividades diárias
Nas tardes de verão, nossas mães preparavam jarras de Q-Suco, variando cada dia um sabor. E quando não tinha Q-Suco na vendinha perto de casa, a gente comprava uma garrafa de Groselha, misturava com água e era a mesma coisa. Tinha ainda outras guloseimas inesquecíveis como aquelas chupetinhas coloridas e os famosos pirulitos em forma de guarda chuvas, feitos de puro açúcar queimado.
Lembra das balas Chita, Pipper, Toffee, 7 Belo, do Drops Dulcora, dos cigarrinhos de chocolate da Pan, do martelete e do quebra-queixo? A vida era muito doce.
Mas essa gulodice por doces tinha lá o seu preço. E isso não saía barato. Havia muita verminose entre as crianças do meu tempo e o remédio, prá variar, era sempre muito amargo. Vai ver que foi nessa época que surgiu a famosa frase que diz que remédio bom, é remédio amargo. E por conta disso, de tempos em tempos para combater o “amarelão”, a gente tomava à força “suco de erva Santa Maria” junto com pílulas de óleo, daquelas verdinhas, terríveis, se a gente mastigasse alguma delas. E prá completar, tinha também o Óleo de Rícino e o famoso “Salamargo”, argh!
Em compensação, a gente ia à pé para a escola, e depois da tarefa pronta, íamos de novo à pé para as casas dos amigos e de lá, para os campinhos de futebol, nadar em açudes ou riachos, brincar nas ruas de terra batida, nos terrenos baldios ou nas matinhas da periferia bancando o Tarzan balançado em cipós e subindo em árvores, de onde só voltávamos ao escurecer. Bons e saudáveis tempos aqueles. Semana que vem tem mais. Até lá.
