O ser humano é gregário por natureza, isto é, é-lhe inerente viver em sociedade, em particular no trabalho, em constante contato com seus semelhantes; e muitas pessoas fazem do exercício de seu trabalho uma forma mais envolvente e ampliada de sua existência, transformando-o em um estilo de vida.
Os vínculos que se formam a partir do trabalho, muitas vezes, são vínculos afetivos, duradouros, e representam investimentos subjetivos – uma extensão do próprio “eu”. O trabalhador pode vivenciar o prazer no trabalho construído intersubjetivamente (1), mas, segundo Dejours (2) e Seligmann-Silva (3), o trabalho pode constituir-se tanto fonte de prazer quanto de sofrimento e de temores diante da expulsão de um grupo, por demissão.
Deve ser terrível ouvir a frase – você está demitido –. Mas o que se sabe é que todos – e aqui se fala daqueles um pouquinho ou um "tantão mais velhos” que já contribuíram com sua mão de obra para alguma organização –, absolutamente todos a ouviram alguma vez na vida. naturalmente, a demissão pode causar dor tão intensa que se assemelha até mesmo a perder uma pessoa querida do círculo familiar ou não. Por que isso ocorre?
Quando inesperada, a demissão geralmente soa como uma sentença de morte, uma ruptura abrupta de relações afetivas construídas no cotidiano do trabalho: pode representar um rompimento interior e gerar desconfiança, insegurança e até mesmo levar o indivíduo à depressão, um misto de revolta e vergonha (ninguém aprecia ser demitido). Depois, costuma-se buscar um motivo – e ele, certamente, existe – que justifique a dispensa, racionalizando-a para que seja melhor “digerida”. Quando a demissão é esperada, ela torna-se menos dolorosa; em contrapartida, gera um sofrer lento diante da movimentação na empresa: todos parecem conspirar, olhar com desconfiança, produzir uma espécie de pessimismo autofágico.
O período que antecede à dispensa é um tempo de espera, em que se avolumam os medos, insônias e angústias diante da imprevisibilidade. Os motivos da demissão? Eles podem até ser concebíveis, mas dificilmente serão aceitos por quem é demitido. Todavia, quanto mais tempo se demora para acatar a realidade da dispensa e “digeri-la”, mais tempo se leva para uma recuperação. As consequências? Há diferentes respostas e reações a uma demissão: isolamento interior, locuções íntimas em busca de explicações, sentimento de indignação e baixa autoestima, desespero e angústia diante do incerto porvir e até mesmo alguma forma de desregulação psíquica. Levantar a cabeça e seguir adiante, porém, ainda parece ser o melhor remédio. Para quem demite – salvo aqueles “casos maldosos e cruéis” que, sarcástica e impiedosamente, parecem comprazer-se ao impingir mal a outrem – também sofre.
Imagina-se, em boa sanidade mental e emocional, que o processo de demitir alguém traga consigo uma incerteza dolorosa. Ver o outro demitido é sentir-se, igualmente, em desamparo, sem perspectivas, de um momento para outro. Alguns não se encorajam a demitir alguém e aguardam dias, sob pressão interior, até que, finalmente, encaminham um emissário para a execução da tarefa. Outros, de forma acovardada, principalmente quando se trata de uma demissão inesperada e reconhecidamente injusta, assim o fazem para se esconderem da “vergonha” e não assumirem o próprio ato. Apenas demitem e escusam-se de justificativas: tal procedimento, na verdade, talvez seja um bom paliativo para não se exaltarem os ânimos e se evitarem conflitos e altercações.
Um bom conselho – se se possa emitir algum conselho em situações como essa – é que aquele que demite seja o mais profissional possível, respeite o funcionário demitido sem inventar motivos procurando desqualificá-lo ou destratá-lo. Afinal, ninguém pode ponderar o imprevisível: ambos podem estar lado a lado em uma mesma empresa ou um e outro podem estar em lados opostos da próxima vez. O certo é que uma demissão não é um “monstro que se deve engolir” e que, com frequência, deixa marcas para toda a vida. Uma dispensa, porém, pode representar um momento oportuno para externar a criatividade e a inventividade do trabalhador, uma forma de crescimento interior quando se vê obrigado a reunir forças para superar o evento. E mais: o demitido pode encontrar outras formas de trabalhar, rever suas aptidões, acrescentar habilidades e aprender muito com seu emprego anterior.
1. MENDES, A. M.; AGUIAR, V. B. Por uma gestão mobilizadora de qualidade de vida no trabalho – a proposta da clínica da psicodinâmica no trabalho. In: FERREIRA, A. C.; ANTLOGA, C.; PASCHOAL, T.; FERREIRA, R. R (Orgs.). Qualidade de vida no trabalho: questões fundamentais e perspectivas de análise e intervenção. Brasília: Paralelo 15, 2013.
2. DEJOURS, J. C. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. Tradução A. L. Paraguay e L. L. Ferreira. 5 ed. ampl. São Paulo: Cortez/Oboré, 1992. 168 p.
3. SELIGMANN-SILVA, E. Trabalho e desgaste mental – o direito de ser dono de si mesmo. São Paulo: Cortez, 2011. 622 p.