Conta o compadre Geraldo de Melo, que quando ainda era mocinho, resolveu procurar trabalho de peão de boiadeiro numa afamada fazenda da região de Barra do Garça. “Quando cheguei na fazenda, fiquei sem coragem de falar com o patrão, por causa do jeito dele tratar a “peonada”. Era conhecido como Coronel Belarmino, um sujeito sacudido e sistemático por demais da conta. E eu fiquei ali, só assuntando a movimentação. Uma hora, “seu” Belarmino chamou um dos peões e disse:
- Zé Baiano , vá até a casa do Mirto Caçador e fale que eu preciso dele aqui, pra matar umas onças que estão comendo os garrotes. Vou pagar 500 contos cada onça morta. Nesta hora, precisando do emprego e também garantir um bom dinheiro, eu criei coragem e falei com o fazendeiro.
- Seu Belarmino, eu sou profissional em caçada de onça nas fazendas. Se o senhor me arrumar emprego de peão, eu faço o serviço de graça e dou fim nessas onças que tão dando dor de cabeça e prejuízo pro senhor.
Na hora, “Seu” Belarmino já interessou em conversar comigo, procurando saber o que eu precisava para a empreitada e aí eu disse: “só dois cachorros cabeçudos e uma arma de fogo das boas...” Seu Belarmino respondeu: “Os dois cachorros estão à sua escolha no meio de três dúzias deles, tudo bicho bão e ligeiro que só vendo. As armas, você também pode escolher na minha coleção. Escolha um cavalo bão, ligeiro e bem descansado, porque, se o animal for lerdo e frouxo, as onças comem o cavalo e o caçador, como aconteceu aqui semana passada, e se você resolver o problema, o emprego é seu!”
Depois disso, eu passei o dia rezando e pedindo a Deus pra me ajudar a sair dessa encrenca, porque até aquele dia, nunca tinha matado um pardal na minha vida. Um empregado de confiança do fazendeiro me entregou uma carabina, os dois cachorros, o cavalo e uma caixa de munição. Tudo certinho, tudo em ordem.
Chegamos na tal mata onde as bichonas se acoitavam. O fazendeiro ficou com uma turma de peões, espiando lá de longe. Eu saí rezando, com o pensamento que quando o peão desse o sinal e soltasse os cachorros, eu ia amarrar o cavalo e vazar na braquiara, para eles acharem que as onças tinham me comido. Mas não deu tempo. Fui acabando de amarrar o cavalo numa árvore e as onças chegaram, me obrigando a sair na carreira... eu na frente e as pintadas atrás de mim,cafungando no meu cangote. A minha salvação foi um curral que tinha logo ali na beira da mata. Entrei voando no curral e as tinhosas embicaram atrás. Dei sorte que a porteira do barracão estava aberta, passei pra dentro e vazei do outro lado.
Nesta hora os cachorros chegaram e ficaram “acuando” as onças lá dentro do curral. Eu aproveitei dei a volta por fora e fechei a porteira com a onçaiada esturrando lá dentro. Quando o peão que soltou os cachorros foi chegando, perguntou: “Uai, sô, cadê as onças?” Eu respondi:” Tão aqui bem fechadas. Pode ir lá chamar o patrão pra eu entregar as gatinhas bem vivinhas!”
Quando o coronel Belarmino chegou com a peonada, foi logo perguntando: -- “Seu menino, me diz como foi que você fez para fechar essas feras aí no curral? Eu estufei o peito e respondi: “seu Belarmino, o senhor não tem onça aqui na fazenda, não. O que o senhor tem aqui, é só meia dúzia de jaguatirica. Não me interessei em matá-las porque é tudo fiótona ainda... Peguei as danadas pelo rabo e trouxe elas arrastadas até aqui... coisa bem simples, o serviço foi bem facinho!”. No dia seguinte, eu já era o novo capataz da fazenda!