Gustavo Jesus / Breno Guarnieri

Regina e Henrique há, aproximadamente, oito anos descobriram que o marido possuía infertilidade, o que poderia dificultar a geração de um filho de forma natural. Engana-se, no entanto, quem pensou que o casal se deixou abater com a notícia, muito pelo contrário, já que, a adoção sempre fez partes dos planos de ambos. “Nós sempre sentimos a vontade de adotar uma criança. Queríamos realizar esse ato de amor”, destaca a técnica de enfermagem Regina Carvalho, 44 anos.
A entrada no processo ocorreu de forma tranquila, se comparado com situações vividas por outros casais. “Não vivemos o que chamamos de luto e que muitos enfrentam, quando a aceitação de não poder gerar uma criança é necessária. Como foi algo que sempre quisemos, aguardamos o momento certo de termos a nossa filha no colo”, acrescenta.
O perfil da criança escolhido pelo casal não diferenciou a vontade por meninos ou meninas. “A parte de escolher o perfil é a mais difícil. Uma situação muito delicada, mas com calma e sabedoria escolhemos a nossa princesa, a Marcela”.
A fila...
de adoção em Fernandópolis, no entanto, não se resume a este caso, visto que conta com 18 casais e/ou pessoas habilitados para o recebimento de uma criança, sendo que, conforme o serviço técnico da Vara da Infância e Juventude da comarca do município, estão disponíveis 11 crianças.
As informações são prestadas pelo serviço técnico da Vara da Infância e Juventude, por meio de assistentes sociais e psicólogos. Na comarca de Fernandópolis, atualmente, as 11 crianças foram disponibilizadas para a adoção, após um processo de destituição do poder familiar, quando são esgotadas as possibilidades de reintegração à família de origem. “Os principais motivos estão relacionados à exposição da criança e adolescente a situações de risco, envolvendo negligência e diferentes formas de violência”, destaca o juiz Arnaldo Valderrama, da Vara da Infância e Juventude, que ainda acrescenta: “a pessoa interessada em adotar uma criança precisa levar os documentos pessoais à Vara da Infância e Juventude e preencher um requerimento. Posteriormente, as informações do interessado (os) passarão por uma avaliação técnica”.

"O meu trabalho é fazer que os pais ‘abram o horizonte’ e também optem por crianças um pouco mais velhas", salienta o juiz Arnaldo Valderrama, da Vara da Infância e da Juventude
Ainda de acordo com Valderrama, os adotantes devem ter 16 anos a mais que o adotado e a adoção deverá ser precedida de um estágio de convivência. “Após a inserção da criança ou adolescente em uma família, tem início o estágio de convivência, conforme previsto pelo Estatuto da Criança e Adolescente, que consiste no acompanhamento por equipes da Vara da Infância e Juventude, por 90 dias”.
Em relação ao perfil da criança, Valderrama destaca que a opção entre os fernandopolenses são crianças mais novas, de 2 anos ou 4 anos. “O meu trabalho é fazer que os pais ‘abram o horizonte’ e também optem por crianças um pouco mais velhas. Eu já autorizei a adoção de um adolescente de 15 anos. Mãe e filho se dão super bem”.
Tempo de espera
Sobre o tempo de espera, a Vara da Infância e Juventude esclarece que ele é determinado pelo perfil da criança pretendida, que está relacionado, por exemplo, à faixa etária, sexo, cor, condições de saúde e aceitação de grupo de irmãos. “Durante o processo de habilitação para adoção, além das entrevistas e outros procedimentos realizados pelo serviço técnico judiciário para a elaboração do estudo social e psicológico, os postulantes deverão participar da preparação psicossocial e jurídica, em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente, que também prevê a renovação da avaliação técnica ou em caso de nova adoção”, acrescenta Valderrama.
Justamente o perfil
O perfil é justamente um dos motivos que fazem com que nem todas as crianças que estão disponíveis para adoção encontrem, de fato, um novo lar, já que, na maioria das vezes, conforme o serviço técnico, não corresponde ao perfil pretendido pelos pais. “Um dos desafios é associar o melhor interesse da criança ao desejo dos postulantes. Outra questão que representa um grande desafio é o processo de adoção tardia, com crianças mais velhas, pois esses processos apresentam peculiaridades na integração, na formação de vínculos em virtude de vivencias anteriores e que necessitam de uma atenção técnica mais aproximada”, finaliza.
Orfanato
Além do trabalho da Justiça, os orfanatos são instituições fundamentais para que adoções se realizem. Responsáveis por manter as crianças que tiveram suas guardas retiradas, ou que foram abandonas pelos pais, os orfanatos contribuem de maneira decisiva para a formação educacional e social enquanto um novo lar não chega para quem está na fila de adoção. Em Fernandópolis, esse trabalho é mantido pela Associação Assistencial Nosso Lar.
Suzi Ferrarezi, coordenadora da instituição, falou sobre como os menores que chegam ao Orfanato. "Crianças que estejam passando por violações dos seus direitos são retirados dos seus lares pelo juiz e são enviados para o Orfanato para serem cuidadas. Nós cuidamos das crianças aqui, enquanto as famílias das crianças tentam se reestruturar. Dentro de 2 anos, se a família não mostrar melhora para poder receber de volta a criança, a Justiça tira o poder familiar daquela criança e ela entra na lista de adoção", explica.
Assim como em todo o país, em Fernandópolis os pais têm preferência por bebês caucasianos, o que faz com que as filas para adoção sejam enormes, mesmo com o grande número de casais cadastrados nas filas de espera. "A maioria das pessoas quer bebês, crianças pequenas e filhos únicos. As crianças vão ficando na fila por causa da exigência das pessoas que querem adotar. 'Eu quero um filho de pele clara, até tantos anos', vai ficando difícil encaixar as exigências desse casal. Infelizmente, ainda, tem esses preconceitos. Já melhorou muito, mas ainda assim, normalmente a procura é pelas crianças menores", diz Suzi.

Perfil é justamente um dos motivos que fazem com que nem todas as crianças que estão disponíveis para a adoção, em Fernandópolis, encontrem, de fato, um novo lar
O Nosso Lar tem, atualmente, 14 crianças, entre um recém-nascido e um adolescente de 15 anos. Ao longo dos seus 23 anos de história, a instituição já recebeu cerca de 600 crianças. "Quando as crianças atingem a idade de poder trabalhar eles são inclusos em programas de menor aprendiz. Nós tentamos buscar emprego, faculdade, enfim, encaminhamos a vida deles como se fossem filhos, até os 18 anos".
Drogas
Boa parte das famílias, que perdem a guarda de seus filhos, têm problemas com o vício em drogas. E é justamente esse perfil que tem feito com que crianças de classes sociais mais favorecidas também façam parte das filas de adoção. "Infelizmente as drogas são o maior índice de problema para o abandono de crianças. Os pais perdem a noção de como é a vida, de como lidar com os filhos. Também vemos que existe um histórico familiar que atrapalha bastante nisso. Por causa das drogas inclusive está mudando o nível de classe social em que ocorrem esses tipos de situação", acrescenta Suzi.
Suzi também fala sobre a importância da adoção e se usa de exemplo para estimular a prática. "A adoção é uma coisa linda. As pessoas que conseguem fazer isso são especiais. Só o amor pode mudar. Quem tem vontade não deve ficar sofrendo por não ter filhos, vale muito a pena tentar. Eu sou mãe adotiva e posso dizer que esse é um amor incondicional".