Claudinei Cabre

“Se eu morrer, minha mãe me mata!"

“Se eu morrer, minha mãe me mata!"

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 9 anos



Como já contei aqui neste espaço, vivi minha primeira infância na roça onde morei com meus pais, até por volta dos seis, sete anos de idade. Mas mesmo vivendo na cidade, até a mocidade mantive um vínculo muito forte com o povo da roça, até porque meus avós maternos, muitos tios e primos, permanecerammorando em sítios e fazendas. E nós sempre íamos visitá-los. 


Recuando no tempo, lá pelo final dos anos 50, me recordo perfeitamente bem que meu pai e meus tios tinham suas espingardas “Pica-pau” e suas sacolas de cartuchos. Lembro que essas lendárias espingardas eram carregadas pela boca. Colocavam chumbinhos, depois despejavam a pólvora que era armazenada dentro de um pequeno chifre de boi e socavam bem com uma vareta, que enfiavam no cano da espingarda. Um dos meus tios tinha até alguns cachorros “Paqueiros e Perdigueiros” que eram ensinados para “levantar” perdizes, nhambus, codornas e pombas do ar, durante as caçadas que faziam pelas palhadas das roças de milho e arroz. A caça para o homem do campo naqueles tempos bicudos era uma coisa natural, um meio de buscar “mistura” na natureza. 


Nessa época, ainda não existiam e nem haviam sido inventadas as palavras meio ambiente e ecologia. Nem Polícia Ambiental, nem códigos e leis sobre a caça, a pesca, etambém não havia o Ibama. Nós e nossos pais, não tínhamos a menor ideia sobre preservação ambiental e o que era ou não, crime contra a flora e a fauna silvestre. Matas enormes eram derrubadas no machado para dar lugar às cidades e áreas de lavoura para plantio de café, arroz, feijão e milho. Coqueiros e moitas de taboca eram derrubados para construção das antigas casas de barro, as famosas taipas. Eram tempos rudes, dias inocentes. Fora a caça, outro jeito do caboclo “buscar mistura”, era a pesca nos riachos e açudes dos sítios e fazendas. Então pescava-se lambaris, bagres e traíras o ano todo. Ninguém tinha noção do estrago que era feito pescando na época da piracema. Não havia um mínimo de informação e ninguém tinha consciência dessas coisas. 


O povo era ingênuo. E vendo os adultos com suas espingardas, os “moleques da colônia” logo imitavam os mais velhos, fabricando seus estilingues. A gente procurava sempre uma forquilha de goiabeira ou de jabuticabeira, que eram as mais resistentes; duas tiras de borracha de câmara de ar de bicicleta e um pedaço de couro serviapara fazer a atiradeira ou lançador. A munição eram bolinhas de saibro, que a gente fazia manualmente na beira do brejo e deixava secando ao sol. 


Os tempos e hábitos mudaram tanto, que hoje até o saibro tem outro nome, agora é chamado de argila. Para treinar pontaria ou fazer “guerras’ com outros meninos, a gente usava mamonas verdes. Todos meninos daqueles tempos, carregavam seus estilingues pendurados no pescoço, um embornal com as perigosas bolinhas de saibro e um cacho de mamonas verdes, pendurado na cintura. Quando a gente não estava na escola ou no campinho de futebol, nossa ocupação era caçar rolinhas ou qualquer outro bicho que voasse, mas também nossos estilingues serviam para derrubar jatobás e o cobiçado amendoim de bugre. Como fazer para subir naquelas árvores imensas de caules retos e avantajados, era uma missão quase que impossível. 


Daí, atirar pedras ou pedaços de paus contra as pencas dos frutos lá no alto, além de não dar bom resultado, também não era uma boa ideia. Então, o jeito era ser bom de pontaria com o estilingue, para acertar a pedrada bem no talo do jatobá ou da concha do amendoim de bugre que era até mais resistente que o talo do jatobá. Um belo dia, em nossas andanças pelos brejos e pastos desse mundão velho e sem porteiras, nossa turminha encontrou no meio do pasto da fazenda da família Cáfaro, um pouco adiante onde hoje está a Unicastelo, um enorme pé de amendoim de bugre. Com uma corda, um pedaço de pau amarrado numa das pontas, laçamos um dos galhos mais baixos da árvore. 


E eu subi até lá em cima e fiz a festa derrubando as conchas do tal amendoim, que na verdade é um tipo de castanha. O problema foi na hora de descer. Era preciso desamarrar a corda. E aí planejei a descida: havia um pedaço de galho pouco abaixo do galho onde a corda estava amarrada. O plano era apoiar as mãos neste galho, pendurar, balançar o corpo e cair lá embaixo em pé.


Não foi uma boa ideia. O galho estava podre e logo que me apoiei nele o ordinário quebrou e eu fui direto, como um foguete de encontro ao solo... tentei aparar a queda com as mãos, mas não deu...enfiei o rosto no chão. Foi uma pancada e tanto e eu fiquei completamente atordoado. O rosto totalmente anestesiado com a pancada parecia ter dobrado de tamanho. Receoso, temendo pelo pior, passei a mão na boca e ela veio toda manchada de sangue e um dente quebrado.  Vendo aquilo os meus “amigos” ficaram apavorados e deram no pé. 


Em pânico, completamente nocauteado e transtornado, soltei uma frase que passou para a história entre a molecadinha da Avenida Doze: “Meu Deus do Céu, se eu morrer, minha mãe me mata!” Bom, como vocês estão vendo eu não morri, mas essas coisas sempre aconteciam com os meninos do meu tempo. A gente era “arteiro demais da conta”, criados na larga e levados da breca. Quando lembro das encrencas em que nos metíamos, até hoje fico de cabelos em pé. Era sempre a mesma coisa, uma maior que a outra. Pensando bem, ter sobrevivido tudo isso me cheira  milagre dos bons, coisa de Anjo da Guarda de menino atentado. Semana que vem eu conto mais. Até lá.

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