Nos últimos anos do século 20, lembro-me da admiração popular com relação aos avanços em muitas áreas do conhecimento, principalmente porque estávamos às vésperas do século 21 e de um novo milênio. Havia esperança, pois muitos acreditavam que seria um tempo repleto de descobertas científicas e evoluções tecnológicas revolucionárias, a julgar pelas conquistas obtidas nas últimas décadas. As pessoas acreditavam que não tardaria a descoberta da cura de doenças terríveis, como o câncer e a AIDS. Programas e documentários exibidos na TV faziam previsões de como seria o nosso dia a dia, cercado por todo aparato tecnológico que proporcionaria conforto e comodidades inimagináveis, favorecendo o aumento da expectativa e da qualidade de vida. A indústria do cinema produzia filmes que mexiam com o imaginário das pessoas ao reproduzir um sofisticado cotidiano no futuro, como o “De Volta para o Futuro 2”, sucesso no final dos anos 1980. Os estúdios Hanna-Barbera criaram a série animada “Os Jetsons” (popular entre as crianças nos anos 1980 no Brasil) que mostrava uma família que dispunha de robôs, carros voadores e morava em uma cidade suspensa. Enfim, esses e outros exemplos demonstram que era comum, na época, reverenciar o futuro da humanidade no século 21.
Pois bem! Já faz mais de 17 anos que estamos no tão esperado século 21 (isso mesmo, 17 e não 18 anos, pois este começou em 1° de janeiro de 2001, e não no ano 2000), e parece que algumas pessoas decidiram, ironicamente, ao invés de se maravilharem com as conquistas da modernidade, defender ideias atrasadas que as fazem regredir não ao século passado, mas à uma época mais distante no tempo - a Idade Média - também conhecida como Idade das Trevas. Refiro-me àquelas pertencentes aos grupos contrários à vacinação de crianças e adolescentes, que expressam um pensamento tão retrógrado que sinto-me à vontade em identificá-las nesse período da História em que a humanidade acreditava em mitos e lendas.
De acordo com reportagem no jornal O Estado de S. Paulo, publicada no dia 21 de maio de 2017, vem ganhando força no país grupos que pregam o boicote às vacinas. São formados por pais em redes sociais da internet que disseminam informações, sem nenhum fundamento científico, sobre supostas reações adversas provocadas pela vacinação, como por exemplo, relacionando-a ao autismo. São, em geral, informações falsas propagadas na rede mundial de computadores. Para se ter uma ideia do número de adeptos desse movimento, em apenas cinco grupos no Facebook, analisados pelos jornalistas que elaboraram a matéria em questão, foram contabilizadas mais de 13,2 mil pessoas.
Esse movimento preocupa integrantes do Ministério da Saúde, como João Paulo Toledo, diretor do Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis daquele órgão federal. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, ele disse: “Isso preocupa e causa um alerta para nós porque são doenças imunopreveníveis, que podem voltar a circular se a cobertura vacinal cair, principalmente em um contexto em que temos muitos deslocamentos entre diferentes países”. Toledo ainda destacou “que todas as vacinas oferecidas no país são seguras”.
Defender a ideia de que vacinas fazem mal às pessoas é um desserviço público em um contexto atual em que doenças antes erradicadas voltaram a surgir na população. De acordo com reportagem do Jornal “O Globo" do dia 18 de julho de 2018, o número de pessoas afetadas pelo sarampo chegou a 677 no país até meados de julho desse ano e outras 2.724 ocorrências estão sendo investigadas (dados do Ministério da Saúde). Em 2016, a doença foi considerada erradicada no Brasil. A cobertura vacinal para que não haja surtos deve ser de 95%, no entanto, no ano de 2017, essa meta ficou abaixo do esperado, alcançando 83,9% na primeira dose (tríplice viral), e 71,5% na segunda dose (tetra viral). A poliomielite, erradicada desde 1990 no país, pode voltar a apresentar casos em algumas regiões. O alerta é do Ministério da Saúde, que apontou que 312 municípios de diferentes estados apresentaram cobertura vacinal abaixo dos 50% entre crianças menores de 1 ano de idade - um número baixíssimo e surpreendente, a despeito de toda divulgação que se faz na mídia durante as campanhas vacinais. Também convém lembrar que entre julho de 2017 e abril de 2018, foram registradas 328 mortes por febre amarela no Brasil (dados do Boletim do Ministério da Saúde). A febre amarela é uma doença que pode ser prevenida por meio de vacinação.
Embora a divulgação de notícias falsas ("fake news") não seja o único motivo para justificar a baixa adesão a algumas vacinas no Brasil, não se pode desprezar o estrago que elas acarretam. De acordo com a epidemiologista Laurence Cibrelus, da Organização Mundial da Saúde (OMS), recentemente, boatos tiveram influência na baixa cobertura vacinal contra a febre amarela no país. Os outros motivos para a baixa adesão à imunização de crianças são: dificuldade das famílias em acessar os postos de saúde, descaso em relação ao risco de velhas doenças e falsa sensação de segurança, de acordo com reportagem publicada no jornal Folha de S. Paulo no dia 19 de junho de 2018.
Destaca-se que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e outros dispositivos legais garantem o direito das crianças à saúde e tornam obrigatória a vacinação. Portanto, os pais que não mantêm atualizada a carteira de vacinação de seus filhos poderão responder criminalmente por expô-los ao risco de adoecimento e morte.
A decisão de não vaciná-los não provoca apenas consequências individuais, mas também é um problema de saúde pública, pois uma criança que adquire doença infectocontagiosa pode transmiti-la a outras pessoas no lar, nas creches, nas escolas ou em outros centros de convivência social. Cria-se uma corrente de contaminação que pode debilitar indivíduos ou até mesmo levá-los à morte por causa de uma doença que pode ser facilmente prevenida por meio de uma simples vacina que se encontra disponível, gratuitamente, nas unidades de saúde.
Além de um ato de obscurantismo, é uma completa irresponsabilidade dos pais não imunizar seus filhos. Tenho certeza de que um cidadão que viveu na Idade Média daria tudo para ter à sua disposição meios para prevenir doenças que, em sua época, eram verdadeiras sentenças de morte.
O boicote às vacinas é uma ode a insensatez e um retorno à Idade das Trevas em pleno século 21.