Histórias do T

Histórias do Tempo do Botinão

Histórias do Tempo do Botinão

Claudinei Cabreira

Claudinei Cabreira

Publicada há 7 anos

Aposto que pouca gente sabe o que era e o que significava a expressão “birolo”, muito popular por estas bandas lá por volta dos anos sessenta, mas isso surgiu aqui em nossa Fernandópolis. Teve sua origem lá na Fazenda Jagora do saudoso Orlando Biroli, uma das maiores produtoras de café da antiga região da Alta-Araraquarense, hoje rebatizada de região Noroeste Paulista.


Naqueles tempos, o café era a locomotiva, o carro-chefe que movimentava a economia do rico interior paulista. Segundo Orlando Biroli Filho, no começo da década de sessenta a Fazenda Jagora atingiu a impressionante marca de 970 mil pés de cafeeiros plantados. Essa floresta do então chamado “ouro verde” era” tocada” pelas famílias dos colonos que moravam nas 47 casas de alvenaria que formavam a grande colônia da fazenda.


Cada família “tocava” alguns milhares de pés de café’. E quando chegava a época de plantio ou da colheita, era preciso buscar reforço na cidade. Aí surgiram os “birolos”, o povo que ia trabalhar na fazenda da família Biroli. Naquela época era comum ouvir conversas do tipo “vamos birolar?” Isso significava ir trabalhar lá nas lavouras de café da Fazenda Jagora.


Vi e vivi tudo isso de muito perto.. Corria o ano de 1958 e meus pais deixaram Cedral e vieram para a Fazenda Jagora, onde já moravam meus saudosos avós Ricieri Tarlau e a noninha Egle. Eles moravam na última casa da colônia, bem ao lado da centenária paineira, onde havia uma porteira, o caminho da roça, que começava bem ao lado da matinha..


Para “tocar” aquela imensa lavoura de café, além da ajuda extra dos birolos, era preciso a participação de todo mundo. Então a famílias se movimentavam. Parte das mulheres cuidavam de preparar o almoço e a merenda, sempre com muita “sustança”, prá dar força pro povo que estava labutando na roça. Outras, com os filhos levavam o almoço nas marmitas e eu, com meus seis anos, ia junto. E até ajudei muitas vezes carregar balainhos de café até as covas. Lembro que tudo era muito bem organizado. Uma turma ia na frente com enxadões abrindo os buracos, outros estercavam as covas e por ultimo vinha uma outra turma plantando as mudas. Na época das colheitas a coisa era mais ou menos igual.


Até hoje lembro da velha paineira que na primavera, quando floria, enfeitava o chão com suas perfumadas pétalas. E meses depois quando seus frutos, as painas, se abriam naturalmente, voavam plumas brancas  enfeitando os céus da colônia. Não há criança que não se encante com essas magias da natureza.


Lá  se vão mais de sessenta e tantos anos, mas até hoje me lembro dos flamboyants floridos da sede da Fazenda Jagora.  Me recordo do grande açude que havia à esquerda da estradinha que levava até a colônia. Do lado direito nas margens do límpido Córrego do Jagora, um grande pé de jambo. E logo depois, no começo da colônia, a Vendinha do “Seo” Mario Rodrigues, onde sempre me empaturrava de doce Sírio e Maria Mole. Doces tempos.aqueles...


As tardes de domingo eram sagradas, sempre eram dias de festa.  As famílias iam inteiras para o campo de futebol  que havia acima da colônia, ao lado da matinha. Por muitos anos, o time da Fazenda Jagora foi  conhecido  como o time dos alemães. E os alemães desse time eram meus tios Titão, Sanin e Guto.. Grandões, fortes e bons de bola. No banco de reservas o Tio Termes, sempre meio caladão, mas que dava lá os seus pitacos para o Vozinho Ricieri, que era o técnico do time. A “Alemonzada” do Jagora era um time respeitado. Tinha raça.


Nosso espaço termina aqui, mas ainda voltarei com outras belas lembranças  da Fazenda Jagora. Tem histórias que não acabam mais. Semana que vem a gente volta. Até lá.


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