Numa certa manhã de um dia desses, o boteco do Pedrinho da Nica, lá em Aparecida do Taboado, estava entupido de gente batendo o queixo de tanto frio e enchendo o latão de conhaque e cachaça pra esquentar as orelhas. Só o velho Juca Lustroso, famoso capataz da fazendinha do compadre Geraldo de Mello, sem blusa e de manga de camisa, dizia que aquele era um friozinho àtoa, desses bem bestas.
- Vocês não conhecem e tem tem ideia do que é um frio de verdade. Na roça que meu pai tocava, ali no baixadão bem do lado do rio Aporé, é que faz frio mesmo. O pai tinha umas terras naqueles cafundós onde o Judas perdeu a meia e um belo dia eu fui tomar conta da peonada que estava capinando a roça. Tava um dia gelado, botei um capote,juntei as tralhas e levei também uma cabaça cheia d’água e pendurei ela no galho de uma figueira... Fiquei ali num canto olhando os camaradas capinando e, mais tarde, quando me bateu a sede, fui tomar um gole d’água. Só que quando cheguei lá na figueira onde havia pendurado a cabaça, a água tinha congelado e os cupins tinham comido a cuia. Ficou só aquela bola de gelo pendurada no galho da figueira!
Nisso, o velho compadre Geraldo de Mello que só estava assuntando a prosa do povo, entrou na conversa:
- Aquela região ali do Aporé sempre foi muito fria mesmo, mas lá no baixadão da lagoa da minha fazenda é muito, mas muito mais frio ainda... Sem desagero nenhum, eu acho que ali é até que é mais frio do que o tal de Pólo Norte!
- Ara Doutor Geraldo, mais frio do que ali na beirada do Aporé?!
- Vichi, seu menino, bota frio nisso.Lá nas minhas terras é muito mais gelado, até acho que dá de uns dez a zero!. E antigamente era mais frio ainda. Lembro que em 1949 deu uma bruta duma frente fria que foi uma tragédia sem tamanho. Só faltou cair neve! Prá dormir, a Filó arrumou minha cama com umas seis cobertas!
- Dotô Gerardo, então a coisa foi braba memo!
- Nem fala, seu menino, só de lembrar eu fico com os ossos doendo. Daí eu falei pra Filó me arrumar uma lamparina que eu não durmo sem dar uma espiadinha no Almanaque do Pensamento. Como a patroa não achou a lamparina, trouxe uma vela, e eu fiquei lendo até o sono chegar. Aí, deixei o almanaque de lado e soprei a vela pra dormir. Continuei soprando e ela não apagava de jeito nenhum. Foi aí que eu levei a mão pra apagar a vela com os dedos e descobri que a chama da vela tava era congelada!”
