Breno Guarnieri
Gustavo Jesus
Livia Caldeira

Mastup: positividade e amor como mensagem
Fenômeno cultural reconhecidamente oriundo dos grandes centros, o Hip Hop tem alcançado penetração cada vez maior no interior, não só na forma de fãs do estilo - que abrange diversas artes, como música, dança, moda e grafite, mas também como produtores de conteúdo. Em perspectivas diferentes daquelas onde os primeiros MC's escreveram suas letras, os rappers formados no interior de São Paulo sonham em expandir sua arte para grandes centros.
O escritor norte-americano Edgar Alan Poe disse certa vez que "a poesia é a criação rítmica da beleza em palavras". As palavras de Poe simplificam o que é o Rap (iniciais de Rhythm and Poetry, que pode ser traduzido como ritmo e poesia). De maneira ritmada as palavras e rimas constroem as letras que falam de crime, amor, política e questões sociais. No Brasil, o movimento surgiu nos anos 1980 e foi massificado pelo grupo Racionais MC's.
RAP É COMPROMISSO
Apesar das diferentes de maneiras de se expressarem, uma coisa é unanimidade entre os rappers. Ele é feito para passar mensagens e há de se ter um compromisso com o estilo para desenvolver a arte. Em Fernandópolis, Aguinaldo Soares, 17 anos, o Guina MC, é um que tenta por meio de suas letras expandir sua música para outras fronteiras que não sejam as do interior. "Quem faz rap no interior quer fortalecer a cena e expandi-la, fazer impregnar na sociedade. Aqui falta incentivo, então a saída é tentar aumentar o rolê", disse.

Magnum e Guina MC em apresentação
Para Diego Souza, 25, o BJERRHY, diante das dificuldades que um estilo musical sem muito incentivo enfrenta, o objetivo é se tornar referência local. "Eu sei que é difícil sair daqui e ganhar dinheiro, fazer sucesso com o rap. Por isso, minha meta é me tornar uma referência local", disse Diego, que é um dos rappers que tenta expandir o rap na cidade promovendo - com outros artistas – batalhas e apresentações no projeto Escola da Família.
Dentro dos vários estilos que compõe o cenário musical do rap, Bjerrhy vê a desunião como principal motivo para que a música tenha ainda menos alcance no interior. "Aqui a cena não é fortalecida por vaidade. Cada grupo quer fazer a coisa do seu jeito e a coisa não sai do lugar".
1 POR AMOR, 2 PELO DINHEIRO
Entre todos os rappers, uma coisa é certa. Só se faz rap por amor. "Não tem como não ser por amor. Não há incentivo nenhum para que possamos fazer nosso som e isso desmotiva demais. Se tivéssemos mais lugares para poder cantar tenho certeza que muito mais gente ia querer conhecer e participar", disse Guilherme Sanches, 28, o Mastup.

BJERRHY tem como objetivo ser uma referência do rap em Fernandópolis e região
Para Vitor Assumpção, o Magnum, em suas apresentações, fazer rap é inspirar as pessoas. "Acredito que com minha música posso inspirar os jovens a serem pessoas melhores. Se eu inspirar as pessoas ao bem e conquistar mais gente para a cena vai ser bom para todo mundo. Eu espero um dia poder sair e fazer sucesso, mas antes, quero inspirar quem está do meu lado".
SE TU LUTAS, TU CONQUISTAS
Não é só de música que o movimento se expressa em Fernandópolis. Larissa Carvalho, 21, dança free step, uma modalidade de dança de rua inspirada em breakdance. "Desde os meus 11, 12 anos eu já gostava das musicas eletrônicas e fazia alguns passos, mas sem noção do que seria aquilo. Fui atrás e no começo era o psy, depois rebolation e, por fim, free step", conta.
Larissa “entrou de cabeça” no estilo, transformando o desconhecido em algo competitivo. "O ruim foi que ninguém sabia olhar pra dança com um olhar técnico ou que aquilo podia sim ser respeitado e não apenas uma diversão de balada. A partir de então eu comecei a levar isso à frente. Participei de campeonatos online e entrei no melhor grupo feminino da capital. Comecei a acreditar mais na minha capacidade porque realmente era extremamente competitivo e assim foi surgindo".

Larissa Carvalho começou a dançar aos 11 anos
A FERIDA, A CHAGA, À PROCURA DA CURA
O professor de Filosofia e Sociologia, José Renato Sessino Toledo Barbosa, pôde constatar o fenômeno em questão bem de perto. A experiência de mais de trinta e três anos na educação básica - vinte e sete dos quais, na capital -, o permitiram conhecer bem a cultura do Hip Hop. Ele conta que todos os anos de trabalho, em sala de aula, em São Paulo, desempenhou na zona leste, área que apresenta os índices mais deploráveis em termos de carências e exclusões.
"Tive contato direto com jovens participantes do movimento, os quais, por sua vez, mantinham-se ligados a militantes do extremo sul da capital. O Hip Hop, sem dúvida, nasce como uma resposta à dor, à exclusão, à carência e os anseios de jovens, sobretudo negros, que clamam por voz, numa sociedade excludente, cruel, desumana e racista. Com esse propósito, traz consigo propostas culturais e políticas", analisa.
Ele explica que trata-se de um fenômeno oriundo das camadas mais baixas, excluídas, da sociedade, até por contar em sua maioria com negros. "O grafite, o break, o rap, são as armas com as quais esses jovens enfrentam as idiossincrasias da vida. Portanto, acredito, esses são os instrumentos, a linguagem, a partir das quais, os jovens se expressam e clamam por justiça social".
De acordo com o professor, é evidente que a violência presente, permanentemente, na vida desses jovens, é um elemento comum em suas práticas. "A violência os cerca e faz girar suas vidas. Suas expressões não são e não podem ser de alegria, porém, um grito, de ódio e dor. Vivemos num mundo racista e excludente, como afirmei, além disso, há o preconceito, a desinformação, logo, a segregação, a visão ruim e distorcida desses militantes, é quase inevitável", explica.
Ele conta também que testemunhou, na capital, uma grande quantidade de jovens que tiveram suas vidas modificadas por completo após ingressarem no movimento. "O Hip Hop age com um norte, um sentido, uma primeira resposta às suas dores e questões. Tenho certeza que aqueles que propuseram essas questões - Mano Brown, Thaíde, por exemplo, têm esse propósito: oferecer aos jovens um caminho, contrário aquele que parece ser o único: a criminalidade. De forma geral, verifiquei que existe um número grande de jovens que pode fazer ou mesmo refazer suas vidas, a partir dessa perspectiva", afirma.
Por fim, ele faz uma reflexão sobre a apropriação indevida do movimento. "Devemos nos manter atentos para a possível, diria, inevitável, apropriação indevida, protagonizada pela 'indústria cultural', cujo objetivo é transformar tudo em mercadoria e lucro. Além dela, o próprio crime, busca uma inautêntica e injusta associação com esse movimento", finaliza.
Grafite no contexto urbano
Em alguns bairros e até mesmo na região central de Fernandópolis, muros, colunas e fachadas transformaram-se, ao longo dos anos, em verdadeiros painéis. Independentemente de onde estão localizadas, as estruturas passaram a ser locais livres e convidativos à exposição do grafite.
Contudo, em contraponto, outra forma de apropriação desses espaços está funcionando como estratégia para combater a deterioração estética da cidade. Por meio do desenho artístico, o grafite vem ajudando a reduzir a quantidade de intervenções que sujam a paisagem de Fernandópolis e começa a ter seu potencial percebido pelos comerciantes e donos de imóveis.
Para o grafiteiro Márcio Calandez, o incentivo à utilização da arte urbana no lugar das pichações é uma maneira de deixar o ambiente urbano menos agressivo. Em sua opinião, a poluição visual em Fernandópolis, mesmo que pequena, atingiu níveis bem chamativos. “Quem se identifica ou pelo menos se simpatiza com a cultura Hip Hop adota a arte para combater a pichação”, destaca Márcio, que ainda acrescenta: “para qualquer pessoa que se pergunte o que é grafite, fala-se de rua, de muros, de desenhos e escritos em cidades grandes. Alguns vão estabelecer uma diferença brutal entre “pichação e grafite”, outros apenas não vão gostar”.

Grafite em um muro da rua Cerqueira César, Jardim América
Grafite e hip hop
Segundo Calandez, a relação entre o grafite e a cultura Hip Hop surgiu da necessidade de novas formas de explorar os espaços, saindo do estilo pessoal e adentrando o ambiente em que a cultura crescia.
“O movimento sempre prezou pelo reconhecimento, pela estética e pela moda, pois ocasionam grande importância para a performance do indivíduo. Por meio das possibilidades de inovação e singularidade que a moda traz, justifica-se sua importância para a cultura Hip Hop, fruto da necessidade de uma população que sempre esteve colocada à margem”, salienta.
Inibição do vandalismo
Segundo ele, o grafite se tornou eficaz, principalmente, na inibição do vandalismo, uma vez que o trabalho dos artistas, na maioria ex-pichadores, tende a possuir respaldo entre aqueles que ainda infringem a legislação.
Em Fernandópolis, alguns donos de empresa e de imóveis têm optado em ceder seus muros para o grafite, como forma de não terem mais problemas com pichações. “O número de grafites vem crescendo nos muros da cidade. Não sei estimar o número de grafiteiros, mas posso afirmar que a cada dia a arte ganha mais adeptos de forma independente, já que a nossa cidade não possui nenhuma espécie de associação”, ressaltou.
ARTE NO LUGAR DO VANDALISMO
A prática do grafite, desde que consentida pelo proprietário e possuidor do imóvel, autorizada pelo órgão competente, e observadas normas de conservação do patrimônio histórico e artístico nacional, não constitui crime.
Embora ainda de forma tímida, os desenhos autorizados nas fachadas de comércios e residências já podem ser percebidos nas ruas de Fernandópolis. E em muitos locais, a estratégia dá certo. É que a troca de favores entre proprietários e grafiteiros encontra respaldo em boa parte dos casos, pois em muro onde há grafite, não se picha.