
Quem assistiu ao filme The Blues Brothers (Os Irmãos Cara-de-Pau, no Brasil), certamente há de se recordar de uma voz feminina exuberante. No momento em que os irmãos vão a uma lanchonete em busca de seu antigo guitarrista — pouco depois da maravilhosa apresentação de John Lee Hooker —, ao entrarem no estabelecimento, são recebidos por uma mulher — no filme, a esposa do tal músico — que, num determinado momento, solta a voz. A fim de exigir que o marido não os siga, canta um soul, mesclado com gospel: Think.
Essa é Aretha Franklin. Nascida no mítico Tennessee, em Memphis, sul dos Estados Unidos, terra da negra voz, dos blues, dos gospels, dos spirituals. Filha do reverendo Charles L. Franklin, cujo templo recebia lendas do gospel como Mahalia Jackson, Dinah Washington, gente do soul como SamCooke e Jackie Wilson.
Cedo, Aretha despertou o interesse do público pela voz.
A família mudar-se-ia para Detroit, templo da Motown, embora não gravasse nessa empresa. Era estrela da Columbia Records.
Falar de belas vozes negras dos Estados Unidos é uma tarefa hercúlea, na medida em que historicamente é uma tradição que remonta ao início do século anterior. Bessie Smith é uma das primeiras divas, seguem Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Alberta Hunter, Nina Simone, Etta James, Sarah Vaughan, Ma Rainey, Koko Taylor, Sippie Wallace, por exemplo. Aretha, inegavelmente, encontra-se nesse panteão.
Não citei Mahalia Jackson, em razão desta recusar-se a gravar comercialmente. No seu entender, sua voz era apenas para louvar o senhor, como afirmava.
Inserir a voz de Aretha Franklin nesse rol não é pouco. Dá a devida dimensão de seu tamanho na música.
Embora não tenha sido uma cantora de muitos sucessos comerciais, agraciou vinte e um prêmios Grammy — prova de sua inconteste qualidade — e foi alçada ao Rock andRoll Hall ofFame em 1987.
Cantou na posse de Obama em 2009. Apresentou-se no Royal Albert Hall, Inglaterra, na presença da rainha Elizabeth II. Comprovando sua nobreza e exuberância. Marcada como a voz do movimento dos direitos civis, a voz da América Negra, a voz da igualdade racial, comprova o privilégio de gente do poder tê-la ao lado.
A revista Rolling Stones fixa-a entre as dez maiores vozes da música. Não é pouco.
Sua morte provoca um imenso vazio na música, sobretudo naquela exalada das mais belas vozes dos Estados Unidos. Encerra uma era caracterizada pelas grandes divas. É mais uma prova indelével do esfacelamento de uma época de grandes artistas.
Era a última das divas vivas.
Descanse em paz, Diva.

Juventude.Aretha Franklinem 1960

The BluesBrothers.Com John Belushie Dan Aykroyd(que foi coautordo roteiro)

Esposa estrela.Com o guitarristaMatt Murphy,no filme “TheBlues Brothers”,de 1980