
Sha-amun-em-su morreu com, aproximadamente, 50 anos de idade, por volta de 750 a.C durante a 12ª Dinastia do Egito. Ela era uma cantora-sacerdotisa e entoava cânticos no templo sagrado dedicado ao deus Amon. Seu sarcófago, feito de madeira estucada e policromada que abrigava sua múmia, estava no Museu Nacional no dia do incêndio. Diz a lenda que era com ela que D. Pedro 2° conversava no paço de São Cristóvão, o prédio onde hoje é o Museu Nacional. Sha-amun-em-su morreu pela segunda vez naquele dia.
Luzia era uma mulher, com idade estimada entre 20 a 24 anos, quando morreu há 12.500 anos em uma gruta da Lapa Vermelha, localizada no município de Pedro Leopoldo, região metropolitana de Belo Horizonte. Seu crânio era considerado o fóssil humano mais antigo encontrado na América e foi estudado pelo conceituado pesquisador Walter Neves, da Universidade de São Paulo. As conclusões de sua pesquisa reacenderam questionamentos sobre a origem dos primeiros humanos que migraram para o continente americano. O crânio de Luzia estava no Museu Nacional no dia do incêndio. Luzia morreu pela segunda vez naquele dia.
No Brasil, existiram dinossauros há milhões de anos, bem como mamíferos espetaculares que, há milhares de anos por aqui viveram, como a preguiça-gigante de 6 metros de altura e o famoso tigre-dente-de-sabre. O acervo de Paleontologia daquela instituição, com mais de 26 mil peças, era considerado um dos mais importantes da América Latina. Aqueles fósseis estavam no Museu Nacional no dia do incêndio. Alguns dinossauros brasileiros morreram pela segunda vez naquele dia.
O incêndio que atingiu o Museu Nacional na noite do dia 02 de setembro de 2018 consumiu a múmia e o sarcófago de Sha-amun-em-su, o crânio de Luzia, os ossos de dinossauros e a maior parte dos 20 milhões de artefatos depositados naquela instituição, acabando com grande parte da memória histórica, científica e cultural do país. Uma das poucas peças preservadas foi o famoso Bendegó, o maior meteorito brasileiro e um dos maiores do mundo. Ele só resistiu por ser constituído de ferro e níquel – somente altas temperaturas de um forno siderúrgico para derretê-lo.
O prédio do museu, agora avariado pelo incêndio, representa parte da história do Brasil, pois em seu interior viveram membros da família imperial brasileira como Dom João 6°, Dom Pedro 1°, Dom Pedro 2° e a princesa Isabel, aquela mesma que assinou a famosa Lei Áurea que aboliu a escravidão no Brasil. Também foi o local onde foi escrita a primeira Constituição Brasileira.
O Museu Nacional localiza-se na Quinta da Boa Vista na cidade do Rio de Janeiro e é a instituição científica mais antiga do país. No último dia 06 de junho, completou o seu Bicentenário.
Esse incêndio foi uma vergonha para o país, com direito, inclusive, a “puxão de orelha” do ex-ministro de antiguidades do Egito, o arqueólogo Zahi Hawass, que disse: “Quem não protege nossa arte, deve devolvê-la!”, referindo à preciosa coleção egípcia depositada no museu e que foi destruída.
Como disse o jornalista Alexandre Garcia: "nada mais simbólico que, em plena semana da pátria, tenha virado cinzas parte das raízes do país. Que futuro se espera de quem não sabe cuidar do seu passado?"