ZÉ RENATO

Ninguém pode ser Frida. O crepúsculo da Femea.

Ninguém pode ser Frida. O crepúsculo da Femea.

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa - Professor e Filósofo

Por José Renato Sessino Toledo Barbosa - Professor e Filósofo

Publicada há 7 anos

Embora não nascido em Fernandópolis, sinto-me adotado pelo município. Não falo em tom de bairrismo ou qualquer sandice semelhante. Todavia, grato pela cidade que acolheu a mim e minha família tão bem. Portanto, incomoda-me qualquer manifestação de repúdio a esse município. Ainda que às vezes tenham razão.

Recordo-me do pronunciamento de um vereador de Votuporanga – cujo nome não me lembro – (nem quero),  afirmando que o nome de Fernandópolis, “provoca-lhe urticária” (sic)!


Parece que o mesmo ocorre comigo em relação ao município vizinho: a câmara municipal aprovou a proibição de uma exposição relacionada à artista Frida Khalo. A alegação: imagens “chocantes” para crianças.


A mostra dar-se-ia durante o FLIV, importante festival literário, cuja relevância enobrece a cidade e aregião.


O mais afoito diria: - Literatura não é pintura.


Não quero aqui discorrer acerca da proximidade das duaas linguagens artísticas; não é meu intento abordar que ambas se distanciam e aproximam-se numa harmonia exuberante. Atração e repulsão, num balé arrebatador. Uma pode viver sem a outra, ainda que a vida de cada uma se empobreça. Como nos lembra o filósofo Empédocles de Argrigento ao falar de neikós (ódio) e fhilia (amor): elas se afastam para aproximarem-se.


Enfim, sem me alongar no tema, quero apenas enfatizar que: é cabível, necessário e oportuno inserir o universo de Frida Khalo num festival literário. Contudo, o problema não é estético, é moral. Sim, não, ...é moralismo. Barato.

“Imagens chocantes para crianças”.


Que merda!


O velho e nojento discurso moralista (falso); ao mesmo tempo que os mesmos que censuram, não importam, aliás “curtem”, crianças erotizadas, vulgarizadas, dançando funk, “fazendo selfies com batom e maquiagem”.


Chocante para uma criança deveria ser o analfabetismo; ver seus responsáveis desempregados e sem perspectivas.


Chocante para uma criança deveria ser o fato de que muitas são brutalizadas, espancadas e abandonadas diariamente.


Chocante para uma criança deveria ser, crescer num mundo cujas marcas são a intolerância, a discriminação e o fanatismo.


Chocante para uma criança deveria ser o adulto que se recusa a autonomia, no momento em que recorre ao poder público, para proibir. Como se dissesse: por favor, impeça, pois, não tenho coragem, competência, força, autoridade moral e ética para legislar sobre a vida de meus dependentes.


Ora, se o dito responsável (?) avalia que não é adequado para seu filho, simples, não o leve.


Recordo-me de um juiz (sempre eles) que proibiu a TV Bandeirantes de apresentar o filme “Último Tango em Paris”. Motivo: não queria que seus filhos assistissem. 

Muda de canal ou desliga a TV, p...!


O que está em jogo é um problema ético: se assumo a incapacidade de lidar com a autonomia, se não me sinto capaz da escolha, assumo minha anomia ou heteronomia; quer dizer, me assumo como incapaz da escolha, dou voz àqueles que vociferam pela ditadura, pela imposição, pelo vigiar e punir. Ontologicamente falando: abdico da condição de humano. Torno-me gado.


Um instante: preciso me coçar...


Para completar: o general - vice daquele  nefasto, proferiu a célebre pérola: “- Casa com mãe e avó é porta para desajustados”.


Milhões de mulheres corajosa e decentemente criam seus filhos, netos e bisnetos com a ausência (física e emocional) dos machos. Fazem-no com maestria. Geram gente de bem e decente.


Mais uma porrada nas “mina”.

É pra tirar a favela!

Isso é que deveria chocar as crianças.

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