Embora não nascido em Fernandópolis, sinto-me adotado pelo município. Não falo em tom de bairrismo ou qualquer sandice semelhante. Todavia, grato pela cidade que acolheu a mim e minha família tão bem. Portanto, incomoda-me qualquer manifestação de repúdio a esse município. Ainda que às vezes tenham razão.
Recordo-me do pronunciamento de um vereador de Votuporanga – cujo nome não me lembro – (nem quero), afirmando que o nome de Fernandópolis, “provoca-lhe urticária” (sic)!
Parece que o mesmo ocorre comigo em relação ao município vizinho: a câmara municipal aprovou a proibição de uma exposição relacionada à artista Frida Khalo. A alegação: imagens “chocantes” para crianças.
A mostra dar-se-ia durante o FLIV, importante festival literário, cuja relevância enobrece a cidade e aregião.
O mais afoito diria: - Literatura não é pintura.
Não quero aqui discorrer acerca da proximidade das duaas linguagens artísticas; não é meu intento abordar que ambas se distanciam e aproximam-se numa harmonia exuberante. Atração e repulsão, num balé arrebatador. Uma pode viver sem a outra, ainda que a vida de cada uma se empobreça. Como nos lembra o filósofo Empédocles de Argrigento ao falar de neikós (ódio) e fhilia (amor): elas se afastam para aproximarem-se.
Enfim, sem me alongar no tema, quero apenas enfatizar que: é cabível, necessário e oportuno inserir o universo de Frida Khalo num festival literário. Contudo, o problema não é estético, é moral. Sim, não, ...é moralismo. Barato.
“Imagens chocantes para crianças”.
Que merda!
O velho e nojento discurso moralista (falso); ao mesmo tempo que os mesmos que censuram, não importam, aliás “curtem”, crianças erotizadas, vulgarizadas, dançando funk, “fazendo selfies com batom e maquiagem”.
Chocante para uma criança deveria ser o analfabetismo; ver seus responsáveis desempregados e sem perspectivas.
Chocante para uma criança deveria ser o fato de que muitas são brutalizadas, espancadas e abandonadas diariamente.
Chocante para uma criança deveria ser, crescer num mundo cujas marcas são a intolerância, a discriminação e o fanatismo.
Chocante para uma criança deveria ser o adulto que se recusa a autonomia, no momento em que recorre ao poder público, para proibir. Como se dissesse: por favor, impeça, pois, não tenho coragem, competência, força, autoridade moral e ética para legislar sobre a vida de meus dependentes.
Ora, se o dito responsável (?) avalia que não é adequado para seu filho, simples, não o leve.
Recordo-me de um juiz (sempre eles) que proibiu a TV Bandeirantes de apresentar o filme “Último Tango em Paris”. Motivo: não queria que seus filhos assistissem.
Muda de canal ou desliga a TV, p...!
O que está em jogo é um problema ético: se assumo a incapacidade de lidar com a autonomia, se não me sinto capaz da escolha, assumo minha anomia ou heteronomia; quer dizer, me assumo como incapaz da escolha, dou voz àqueles que vociferam pela ditadura, pela imposição, pelo vigiar e punir. Ontologicamente falando: abdico da condição de humano. Torno-me gado.
Um instante: preciso me coçar...
Para completar: o general - vice daquele nefasto, proferiu a célebre pérola: “- Casa com mãe e avó é porta para desajustados”.
Milhões de mulheres corajosa e decentemente criam seus filhos, netos e bisnetos com a ausência (física e emocional) dos machos. Fazem-no com maestria. Geram gente de bem e decente.
Mais uma porrada nas “mina”.
É pra tirar a favela!
Isso é que deveria chocar as crianças.